segunda-feira

A paz é uma rua de mão dupla



A violência não brota do nada. E não tem só uma ou duas causas nem caras. Não pode ser reduzida a fórmulas, como se tende a fazer nas situações limite. Do mesmo jeito esse objeto de desejo de tanta gente que se chama paz. Assim como violência gera mais violência, uma cara cordial, um olhar amigável e um sorriso desarmado convocam a paz no interlocutor. Pode ser difícil em alguns casos; mas na maioria das vezes não só é possível como muito agradável. E faz bem à saúde.
As discussões sobre o assunto terminam muitas vezes num charco estéril de narcisismo. Argumentos irredutíveis que perdem de vista a questão concreta não servem para nada.
As discordâncias conceituais têm que existir e devem ser debatidas. Mas se vierem pela voz da prepotência e da vaidade, perdem sua razão de ser e servem apenas para engrossar o arsenal das farpas, muito útil a quem pretende aproveitar a crise para se projetar ou – pior ainda – tirar vantagem dela. Será que isso não é manifestação de violência?
No imaginário coletivo as represálias e a vingança parecem ter-se tornado recursos legítimos contra quem, com ou sem intenção, cria obstáculos ao interesse de alguém. A primeira atitude das pessoas é o revide, que vai das palavras à agressão física. Refletir um pouco nessas horas é um santo remédio para não pagar mico. Apesar das aparências, quem mantém o autocontrole numa situação de confronto merece o respeito de todos.
Violência tem graus, mas não escalas que a tornem mensurável. É contagiosa, mas não existe medicamento eficaz contra ela, a não ser que se consiga uma mudança íntima, pessoal, pela qual alguém se disponha a ceder um pouco, ou ao menos mostrar-se aberto a isso, em nome de um entendimento melhor com o próximo.
O mundo não se divide em pessoas boas e más como se já estivesse tudo resolvido. Nada está resolvido, nem vai estar nunca. Sempre há o que melhorar em nossa vida. Mas isso só acontece quando estamos convencidos de que a paz resulta de uma atitude alerta para compreender, avaliar com lucidez e livre da cegueira da ira, tão frequente nestes dias de brutalidade. Se a mudança não começar dentro de cada um, podemos dizer adeus à paz e à esperança de viver melhor.

7 comentários:

Halem Souza disse...

De fato, o mundo não se divide entre pessoas boas e pessoas más, justamente porque a violência está irremediavelmente acoplada à condição humana (e tive mais convicção disso ao ler, recentemente, dois livros da antropóloga Alba Zaluar).

Atitudes individuais "´pró-paz" - "uma cara cordial, um olhar amigável e um sorriso desarmado" - até podem funcionar. Mas por curto espaço de tempo, infelizmente (o que não significa que não devam ser praticadas).

Um abraço.

Eulalia disse...

Dade, gostei muito de seu blog. Virei visitar sempre!
Parabéns!

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Não existe humanidade sem violência... isso marca nossa história, marca nossa identidade biológica... contudo, pode ser canalizada, direcionada...

Luiza Maciel Nogueira disse...

uma narrativa consciente :)

beijos

Maria Teresa disse...

A palavra é "canalizar". Combatendo impulsos e aparando exageros de manifestações que só levam ao caos. Como sempre, você está coberta de razão.
Beijos

Jens disse...

Oi Adelaide.
Texto ajuizado e certeiro. Temo, porém, dificil de viver. Pessoalmente, já fui mais pacífico. Atualmente estou impregnado pela cultura de violência que me cerca. Em meio aos bárbaros, a civilização sucumbe. Na verdade, creio que o comportamente violento é inerente ao ser humano, como mostra a nossa história, recheada de sangue, lágrimas e mortes. É triste, mas assim caminhamos e, supreendentemente, sobrevivemos. Resta saber até quando.

Beijo apocalíptico.

dade amorim disse...

Obrigada pelos comentários.
Beijos a todos