segunda-feira

Sufoco à italiana






Luiz Ruffato. Mamma, son tanto felice. Rio de Janeiro: Record. (Tomo I da coleção Inferno Provisório.)


Resultado de um trabalho de 15 anos, os cinco volumes da série Inferno Provisório estão agora à disposição dos admiradores desse escritor de mil e um recursos. Ao primeiro título, o incrível Mamma, son tanto felice, seguem-se O mundo inimigo,
Vista parcial da noite, O livro das impossibilidades e Domingos sem Deus.

 O estilo de Ruffato é bem conhecido, desde Eles eram muitos cavalos, seu primeiro livro, versando sobre a cidade de São Paulo, que lhe valeu o prêmio Jabuti. O moço começou como todo escritor gostaria de ter começado. E no seu caso, foi um prêmio merecido.

O primeiro livro dessa coleção deixa a gente em cócegas para conhecer os que vêm depois. É bem significativo o trecho do poeta Jorge de Lima que anuncia como uma epígrafe este romance/narrativa de abertura da série:

Também há as naus que não chegam
mesmo sem ter naufragado:
não porque nunca tivessem
quem as guiasse no mar
ou não tivessem velame
ou leme ou âncora ou vento
ou porque se embebedassem
ou rotas se despregassem,
mas simplesmente porque
já estavam podres no tronco
da árvore de que as tiraram.

Ruffato escreve como quem está vivendo os fatos. Arrasta o leitor para o ambiente da história, cerca-o de seus cenários, e tudo se torna tão real que a própria linguagem fica dispensada de maiores perfeccionismos. Não que ele escreva mal, nada disso. Muito ao contrário: Ruffato domina a linguagem de tal maneira que consegue se comunicar por meio de frases incompletas, sinais fora de lugar, tipologias misturadas. Se no primeiro romance ele se expressava de modo “fragmentário e frenético”,  como se anuncia na orelha de Mamma, essa continua sendo sua estratégia (muito eficaz) para arrastar o leitor e situá-lo no cerne das ações de que trata o livro – ações e acontecimentos capazes de nos afetar como se fôssemos nós mesmos personagens da trama.

É essa narrativa não-linear, tumultuada como a história que (não) narra, mas apresenta os fatos por assim dizer ao vivo, é, mais que um texto, uma espécie de epifania envolvendo o leitor. E quando, chegando ao fim do romance, ou seja lá como se possa caracterizar esse livro sui-generis, tem-se a ilusão de entrar enfim em uma narrativa dotada de sequencialidade, logo se perceberá que não é bem isso o que acontece.

sábado

A rede




           


A Armando doía como uma perda a conquista de tanto território, chão espelhado, paredes coloridas. Desde a véspera sentia calafrios, a cabeça estourava a cada movimento. Nem do balcão do quarto, que ela chamava de varanda, ele gostava, por causa da grade fria, escura e de arabescos exatos, que aprisionava a paisagem verde em outro lado do mundo. Não relaxava na cama e seu desejo gritava por uma rede que tinham deixado no apartamento antigo.
O apartamento antigo ficava numa ruazinha pequena em Laranjeiras. As janelas dos fundos davam para umas árvores e ele tinha pendurado a rede diante das folhagens de aparência tenra, sempre novas, e sonhava que balançava debaixo dos galhos como quando era criança em sua terra natal. Estava aposentado por causa de uma doença de nome esquisito e tinha dado muita sorte com dinheiro: dias antes de sair a aposentadoria, caiu em suas mãos um prêmio de loteria, um prêmio grande o bastante para tudo aquilo que Angélica tinha inventado, dando pulos de alegria. Nunca mais dormiria sossegado, nunca mais teria uma rede debaixo das árvores do sonho. Naquela nova casa tão grande não havia espaço para sua rede. As árvores ficavam distantes, a paisagem não o incluía e tudo era lustroso e cheirava a tinta.
Angélica não acreditava nele. Queria que ajudasse a pendurar os quadros, empurrasse móveis detestáveis, atendesse ao telefone que não parava de tocar. Angélica ria, multiplicada em braços, dava ordens aos homens da mudança e tomava providências que lhe pareciam confusas, repentinas, que não chegava a entender. Nem queria.
Fechou os olhos com força diante da janela e quando os reabriu houve um segundo de espanto, como se tivesse uma pedra num ponto qualquer entre o estômago e o esterno. Um momento solto no fio do tempo. A paisagem se moveu e estacou como uma criança brincando quando ele abriu os olhos. Sentiu náuseas, os calafrios voltaram. Um inimigo oculto teria sido mais confortável, pensou, passando a mão na testa. Havia um inimigo dentro dele, e Angélica não tinha culpa disso. Sua culpa não ia mais longe que a medida da sala.
Estirou-se na cama sem lençol e tornou a fechar os olhos que ardiam. Se ao menos dormisse, pensou de novo, mas o pensamento ia além das palavras, percorriam um terreno secreto para si mesmo, onde havia talvez muita lama pelo chão. Faltava até o desejo da rede. O corpo estava imóvel, mas dentro dele havia uma aflição que o fazia girar e se agitar sem descanso num lugar interior. A qualquer momento, sabia, alguma coisa incontrolável podia aparecer. Não seria capaz de identificar o quê. Estava cansado demais para responder à voz que vinha de longe, amortecida por uma espécie de ruído insistente que era como uma cortina entre ele e o mundo exterior. Desistiu de ouvir o que ela dizia, desistiu de tudo e deixou-se mergulhar numa penumbra morna que rodeava sua boca como água.
Ainda notou quando ela apareceu na porta do quarto e perguntou alguma coisa. Viu seus olhos muito abertos e um silêncio escuro foi engolindo tudo – Angélica, a janela da prisão, o teto com uns desenhos intrigantes – até que não viu nem ouviu mais nada. Não ia morar naquela casa hostil. Estava de novo balançando de leve na rede do Norte, tão macia que era como não estar em lugar nenhum.

quinta-feira

Papai Noel não existe



                                                                        Imagem sem nome de autor


Espécime ambíguo e pouco confiável que é o ser humano. Investimos recursos incomensuráveis para fazer a guerra – que é o jeito oficial e socialmente aprovado de dar vazão à fera que vive em nós. Os fora-da-lei apostam a vida – e de um modo ou de outro a perdem – no jogo da violência e da força bruta; outros, como os políticos desprezíveis e os servidores públicos de mau caráter que conhecemos tão bem, usam os cantos menos claros da lei para arquitetar golpes milionários, enquanto falta o mínimo para que tantos possam viver com decência. Quantas maneiras existem de matar?
Parece bem verdadeiro que o coração não se perturba com o que os olhos não veem. As equipes econômicas trabalham com abstrações e eternos métodos de ensaio-e-erro, dando seu jeito de fugir ao óbvio com ar de quem sabe tudo. Seus saberes passam ao largo das necessidades primárias de dar de comer a quem tem fome ou criar condições que facilitem a todas as camadas da sociedade o acesso a uma vida digna. Interesses mais altos se levantam, e além disso existe esse ser metafórico e mutante a que chamamos mercado – álibi perfeito para legitimar a ganância dos mais fortes.
Enquanto isso, com a cabeça ainda povoada de transcendências esgarçadas, a gente cria programas inócuos de nomes tocantes, campanhas de efeito fugaz e abraça o Pão de Açúcar invocando a paz. Como se a paz fosse um orixá e não um estado de espírito. 
Mas afinal, quem somos? Será que von Trier foi pessimista demais quando construiu sua Dogville?

terça-feira

Santa, Noel e as renas




Neste ano Papai Noel não saiu no trenó de renas, que as crianças adoram ver desfilar do alto de suas janelas. Repassou a correspondência volumosíssima a seu assistente imediato, encarregado de vestir o uniforme vermelho e cruelmente quente na noite do dia 24, para levar os presentes dos filhos da classe A, normalmente uma tarefa do chefe. Neste ano o assistente acumulou as entregas com as da classe B, sua atribuição regulamentar. Outros dois assistentes são encarregados respectivamente das crianças de classes C e D, além de um quinto, que coordena os trabalhos e orienta os componentes da equipe quanto a endereços difíceis de encontrar.
Impossível precisar dia e hora, mas tudo parece ter começado com São Nicolau, um bispo grego da cidade de Mira, que gostava de distribuir presentes aos pobres. Venerado por várias igrejas cristãs, é padroeiro de muitas profissões (incluindo os ladrões), crianças e estudantes em diversos países do Leste europeu; padroeiro de Nova Amsterdam, primeiro nome da cidade de Nova York, e da guarda dos imperadores bizantinos, encarregados de zelar por suas relíquias. De tão conhecido e estimado, acabou sendo identificado ao velhinho de roupa vermelha e barbas brancas – Santa Claus – que segundo a tradição distribui presentes na véspera do Natal a todas as crianças de bom comportamento. Até aí vai a lenda, porque a gente sabe muito bem que bom comportamento é uma exigência retórica, sem muita ligação com a realidade.
Há décadas Noel faz esse trabalho com grande satisfação. Terminadas as entregas, gosta de ver as carinhas saudáveis e bronzeadas dos meninos ricos diante da árvore iluminada e dos embrulhos, que rasgam com pressa de ver aparecer jogos eletrônicos, livros, bonecos, bichos, instrumentos de música, trenzinhos, bicicletas. Gosta em particular de ver a excitação dos mais taludinhos diante de jipes, cartes e motos. Até barcos e asas delta Noel tem entregado a garotos que mal entraram na adolescência, e sabe deus como irão usá-los. Alguns desses presentes o deixam mesmo apreensivo, mas é preciso cumprir sua missão com o mesmo ho ho ho para todos.
De acordo com a versão americana, Santa mora em sua casa no Polo Norte. Pela versão britânica, vive nas montanhas de Korvatunturi, na Lapônia, com Mamãe Noel – invenção de autores americanos – incontáveis elfos e oito ou nove renas voadoras. Uma figura anacrônica. Foi principalmente por causa do interesse comercial nos festejos de Natal que a imagem de Papai Noel ganha vida e vem falar com as crianças em shoppings, lojas e nas ruas do mundo todo. Alguns pais reforçam a lenda na noite dos presentes, para provar aos filhos pequenos a existência do velhinho de vermelho. Devia ser muito grato aos fakes que ganham uns trocados para confirmar sua existência e impedir seu ostracismo. Mas uma pessoa de existência perene não se preocupa muito com isso. Afora sentir-se quase equiparado a Deus, e portanto satisfeitíssimo consigo mesmo, deve achar bem chatos os humanos convencionais.    
Neste ano, Noel entrou em recesso, como a maioria dos funcionários públicos, parlamentares e empregados qualificados das empresas em geral. Mas ao contrário desses, seus dias de folga não foram motivo de alegria nem serviram para lindos passeios ou aventuras gastronômicas especiais. Nem pensaria em viajar nas últimas semanas do ano. Esteve todo o tempo ocupado em resolver os itens de seu litígio com a senhora Noel, pessoa de trato difícil, reunidos cada qual com os respectivos advogados para redigir os documentos da partilha dos bens e fixar a pensão dos filhos – dois gêmeos de onze anos que, à meia-noite do dia 24, receberam seus presentes pelas mãos do encarregado da classe média baixa à qual pertencem.
O problema familiar de Noel jamais atormentaria Santa. Mamãe Noel, sua senhora, séculos mais jovem, deve ser uma espécie de Virgem Maria. Ainda que fosse atingida pela morte, ressuscitaria inteira e mais viva que antes. Não subiria ao céu, e sim ao Polo Norte, para continuar sua existência naquela casa confortável e alucinatória. No mundo deles, nenhuma dificuldade. Talvez nem mesmo o dinheiro seja conhecido por lá. Quem convive no próprio quintal com figuras tão exóticas está acima dessas mesquinharias. A história não especifica até que ponto sua vida pode ser divertida, mas é difícil imaginar o tédio morando com eles. Talvez no período que vai do fim de janeiro ao início de novembro, quando começam as atividades locais. Ou não. O tédio deve ser um triste privilégio dos humanos, que precisam viver inventando agitos, festas e toda espécie de lazer e armações para não mergulhar na mesmice. Mas é difícil entender de que se ocupa um aposentado sem benefício na Lapônia.
Noel é um cara sensível, preocupado com a alegria das crianças, sempre atarefado em encontrar as coisas que lhe pedem antes do dia marcado. Seus ajudantes seguem seus passos, aprendem com ele a respeitar o desejo dos filhos dos outros como se fossem deles próprios. É verdade que nem todos os noéis de shopping e de rua têm tanto caráter. As falsificações se desdobram e crescem a cada Natal. Isso não o abala nem faz esmorecer. Noel incorporou sua missão e nunca relaxou, quando se trata do 24 de dezembro e dos dias que precedem o mês dos presentes.
Agora no entanto, pela primeira vez em toda a longa carreira, foi preciso delegar as funções que, de tão bem executadas, parecem determinadas pelo próprio Santa. Noel não é tão velho assim, não chegou a conhecer seu protótipo na ativa, mas ouviu muito falar dele, pesquisou e leu tudo que pôde a respeito. Quando a mulher lhe comunicou que decidira separar-se, quase caiu com o choque. Imaginava que, sendo ele quem era, também a senhora Noel se assemelharia àquele arquétipo de mulher perfeita e imperturbável.
Os personagens das lendas têm sua própria realidade, e até suas agruras, como os deuses antigos. No caso dos Santa, embora poucas coisas possam perturbar uma pessoa sem medo da morte, talvez tenham algum trabalho com uma rena de asa quebrada, um elfo de mau caráter, sabe-se lá. É complicado falar sobre a vida desse casal tão irremediavelmente bem ajustado. Não se sabe se tiveram filhos ou não. A palavra separação, porém, não consta com certeza do vocabulário deles, por inútil e até inexistente no dialeto lapônio.
O episódio da separação tem servido a Noel como parâmetro da distância, quase ou mesmo infinita, entre eles e os Santa. As duas semanas de preparação de ações, consultas jurídicas e sofrimento profundo, que precisa disfarçar diante dos meninos e dói ainda mais por isso, têm como agravante o sentimento da injustiça, da falta de equidade entre pessoas de funções idênticas e levadas a cabo com um perfeccionismo que vai muito além da simples competência. E essa agonia ainda vai durar pelo menos uns dois anos, até que tudo fique ajustado e os recursos e instâncias se esgotem. Sem falar na questão da partilha, que o preocupa e desanima. Não tem mais idade para recomeçar a vida, e seus bens, já tão poucos, serão reduzidos à metade ou menos que isso, na pior das hipóteses.
Santa é sem dúvida uma figura de recluso. A notícia de sua imortalidade deve ser uma das invencionices tão comuns em tais casos. Sabemos que as pessoas que somem de circulação – em geral artistas ou homens públicos a) cansados de bajulações e da incompreensão das massas e da mídia e b) fugindo de alguma sanção legal – deixam em seu rastro uma aura de mistério e um monte de boatos. O exemplo mais grandioso desse fato foi o Deus do Antigo Testamento, que vivia dialogando com os humanos ou distribuindo carões e castigos horrendos; passado aquele período assustador recolheu-se ao Paraíso e não interferiu mais na vida dos humanos senão de forma indireta e ambígua, deixando margem a teorias, cada vez mais populares e difundidas, que negam ou levantam graves dúvidas sobre sua existência.
Nunca passou pela cabeça de Noel tornar-se um recluso. Não é um homem sofisticado a esse ponto. Sua visão de mundo inclui a necessidade de trabalhar – é contador, na vida civil – e se resolvesse abandonar tudo para ficar em casa provavelmente iria acabar passando fome. Mesmo sua pequena empresa natalina, taxada pelo super simples, nasceu da necessidade de uma fonte suplementar de renda, antes de se tornar aquela paixão quase religiosa. O lucro não é lá essas coisas, mas serve como substituto do 13º. Em termos de preferência pessoal, ele na certa se dedica com mais amor e prazer aos afazeres do fim de ano. Daí a identificação crescente com Santa e a angústia profunda que o tomou diante do comportamento da mulher, tão em desacordo com a verdadeira senhora Santa.
Na impossibilidade de criar as renas da verossimilhança, Noel dá um jeito de encomendar pequenos veados-mateiros a um amigo do Centro-Sul, e todo ano os atrela a uma carrocinha, dessas que, puxadas por bodes ou pôneis, dão voltas nas praças para divertir as crianças. Conseguiu até uma licença especial do Ibama, com a condição de devolver os bichos a seu habitat natural depois da noite de natal (despesas por conta o amigo fazendeiro). O único problema é a falta das galhadas, e ele chegou a pesquisar a sério, esperando encontrar algum tipo feito em plástico, quem sabe. Impossível conseguir asas, mas os chifres lhe pareciam indispensáveis para criar uma cenografia aceitável e impressionar as crianças nos curtos percursos a percorrer.
Foi pesquisando a esse respeito que descobriu um detalhe fundamental para explicar as diferenças entre a senhora Noel e dona Santa. Acontece que, tanto renas machos quanto fêmeas têm chifres. Isso faz das renas um tipo único de veado e explica, de seu ponto de vista, a qualidade inferior de sua mulher: essas renas chifrudas simbolizam a têmpera e a fibra da parceira de Santa. Deve ser essa a razão por que elas são assim tão especiais. Um reles veado-mateiro não garante nada mais que força para puxar a carroça por um quilômetro, se tanto. Além do mais, as renas lapônias até voam, garantem um percurso majestoso e sublime, que seus veadinhos nem chegam a fazer lembrar.
Noel suspirou e baixou a cabeça, derrotado. Nunca seria um êmulo à altura de Santa. Tudo que tinha feito até então não passava de macaquice, diante da perfeição de seu ideal e das renas que o carregaram pelos céus de dezembro nos natais antigos.

sexta-feira

Aquele dias em Búzios



Lembrava Búzios de outro tempo, do tempo com ele. Daquele ponto em que só se via o mar e o céu, os rochedos envolvidos em espuma e a imensa placidez ondulando de leve. O vento era um clima, dava vida à música, levava e trazia, falava entre os cabelos. Um tempo de paixão e irreverência, langores e jogos movidos a ansiedade. O tempo da paixão é também um tempo de angústia, porque se tem tudo a perder. Mas quando ficavam sozinhos, isolados do mundo no jipe de capota aberta ao vento como jovens deuses pagãos – então tinham tudo e nada no mundo seria capaz de atingi-los.

Da colina só se viam mar e céu, espuma nos rochedos, a imensa placidez a ondular a nossos pés lá embaixo e o vento tecia palavras entre os cabelos. Tudo a ganhar. O tempo da paixão é quando se tem tudo a perder.

Naquelas noites, o brilho avermelhado de Marte parecia prestes a escorrer sobre suas cabeças. Ainda não conheciam toda a extensão da guerra em que se envolveriam. Do horizonte a lua atirava ao mar suas escamas e alagava o mundo com seu desvario misterioso. Reviu o pequeno terraço de mesas brancas, as duas taças esguias da comemoração, ele sussurrava tanta coisa em seu ouvido, o coração da festa, os dois a sós, donos de toda a beleza da terra e meio altos por causa da bebida gelada e dourada, o riso silencioso e o beijo em que tinham se perdido noite adentro. Na varanda da pousada, o café da manhã, rindo do grupo que haviam deixado sem avisar ninguém. A escalada pela encosta até a Prainha, os mergulhos na tarde morna, idílios no banquinho de madeira carcomida olhando os barcos no ancoradouro dos Ossos.