domingo

Irmã de filha única


Paul Klee. Selecio (Uma cabeça de homem). 1922 Óleo sobre tela.

Oh Deus, tira essa figura inimiga de dentro de mim. Esquizinha me atrapalha muito a vida. Ela pensa diferente, entende?
Quê? Se ela sair de repente eu caio quebrada em duas, metade pra cada lado? Mas se você me ajudar eu chego junto. Você não tem nada com isso? Como não tem? Então eu acredito em você e você não tem nada com isso? Misturando as coisas, eu? Mas se eu vivo misturada com ela, eu puxo pra um lado e ela pro outro! Cacilda, você não é onipotente? Hein?
Ah, isso é jurisdição do psiquiatra? Ele não é onisciente que nem você. E se ele erra a mão? E se me enche de remédio e eu fico lesa? Você nem se incomoda? Me livra dela, deus, me livra dela.
Ah, ela também é sua filha? E ela não quer se ver livre de mim que nem eu dela? Hein, Deus? Fala com ela então. Eu tapo os ouvidos, não vou me meter na conversa, juro.
Ela não te ouve, né? Tá contente da vida, acomodadinha aqui ni mim, bem no quentinho. E eu tentando arrastar a bicha pra fora, pra tomar ar, inventar coisas novas, e ela ali, numa boa vida de fazer raiva, me puxando pra dentro. Ela quer que eu enferruje, percebe? Quer me zerar pra poder reinar sozinha.
Tá bom, Deus, se você se recusa a fazer a cirurgia, vou ter que continuar arrastando Esquizinha pra todo lado, e ela vai continuar me azucrinando as idéias, reclamando de tudo, azedando as conversas e tentando me convencer a ficar em casa lavando e cozinhando. Ela é machista, você sabe.
Uma curiosidade: se você me separasse dela, com qual das duas ficava o meu marido?




Conselho de mãe carioca


Verão tá matando no Rio. A praia anda maravilhosa, de águas mansinhas, cumprindo com louvor seu papel de refrescar e fazer esquecer o calor carioca. Mas é bom ficar de olho: a dermatologia avisa que depois das OITO o sol fica encapetado e pode provocar queimaduras, insolações e câncer de pele. E como ninguém vai à praia antes das oito, é bom levar o protetor 50 e não vacilar.






Aniversário da morte

de Dante – no meu cabelo

estrelas, rosas e centopéias



Nana Naruto
1943

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9 comentários:

Héber Sales disse...

Gostei muito da irmã de filha única. É bem perspicaz e serelepe. Um beijo

Nanda do Ip disse...

Dade, nesse verão maluco, em Recife, passamos um final de semana de muita chuva - e acho que também tenho uma esquisitinha comigo - apesar que de vez em quando, graças aos céus, ela some!rs - Beijos!

adelaide amorim disse...

Héber, obrigada pela visita - você aqui é de casa :) Beijo


Nanda, ela não some, se esconde =O/ Conheço a peça.
Beijo.

r a c h e l disse...

Hahaha, e não temos todos umas Esquizinhas e Esquizonas? Adorei o post!

E o livro, hein? Nem desconfiava. Tô mega curiosa pra conhecer mais. :)

Beijo!

adelaide amorim disse...

Rachel, essa menina, o livro tá aqui mesmo.
Beijoca.

Míriam Monteiro disse...

Texto delicioso! Sempre um prazer imenso, estar aqui!
Deixo beijo...

Francisco Sobreira disse...

Adelaide,
Um texto que atrai, especialmente, pela forma narrativa e pela linguagem. Vibrei em ouvir "Zum Zum, tá faltando um", que Dalva de Oliveira imortalizou e há tantos anos que não ouvia. Valeu em ambas as coisas! Um beijo.

adelaide amorim disse...

Míriam, também tenho grande prazer em ver você.
Outro beijo.


Francisco, obrigada mesmo. É sempre uma alegria, sua visita.
Beijo.

Marco disse...

Bom o texto, Adelaide...
A Loba lançou livro? Pô, nem me avisou...
O sol e o mormaço estão transformado a pele do carioca em pururuca...
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.