terça-feira

O encontro que não marquei




Ia começar a faculdade, e o centro da cidade ainda era cheio de segredos, quando descobri o primeiro sebo, na rua de São José. Conhecia Monteiro Lobato e alguns autores, principalmente os da estante de meu pai, uma verdadeira mina. O sebo era uma descoberta e tanto. Fiquei meio perdida e um pouco delirante, conferindo os títulos, já pensando em levar uma pilha deles, quando vi o nome de Clarice Lispector numa lombada um pouquinho mais larga que a da maioria dos livros em volta. Tinha ouvido falar dela, que já fazia sucesso, e comecei a folhear o livro – O Lustre – e a lê-lo ali mesmo.
Nem é o melhor livro de Clarice, hoje sei. Mas era o primeiro dela com que tinha contato, e não conseguia parar de ler. Na condução, em casa, até altas horas, na manhã seguinte e em cada instante entre uma e outra atividade. Quase de um fôlego, até a página 341, a última. Depois vieram os outros, todos, tudo que ela deixou escrito e nunca me cansei de ler.
Anos depois, com a cabeça mais fria e mais informação sobre literatura, acho que o que muitos consideram magia no texto de Clarice é simplesmente poesia. A força dessa primeira experiência deixou isso bem claro: ela escreveu poesia durante toda sua vida. Não uma poesia explicitada em forma de poemas convencionais, mas uma poesia em estado puro, quase bruto, que flui de seus textos espontaneamente e foi sua grande motivação. Um certo aturdimento, o inesperado, as epifanias presentes em seus contos e romances, a escolha dos termos, tudo isso obedece a um impulso que se identifica com o que para mim é o melhor da poesia. Um olhar que não se deixa limitar ou contaminar por convenções ou conveniências, mas vai às fontes, seja lá o que sejam as fontes do que se percebe – e que ninguém descobriu ainda. Um raio-X capaz de ver as pessoas na íntegra, sem se deter na aparência, e chegar aonde o senso comum nem desconfia: a inocência, o primitivo de cada um de nós, o núcleo onde a pessoa se resolve. Clarice via claro o que a maioria apenas obscuramente pode intuir.

17 comentários:

Cris disse...

Oi, Adelaide,

Estou com voce na definição do melhor da poesia: "Um olhar que não se deixa limitar ou contaminar por convenções ou conveniências".
O verdadeiro poeta faz arte e consegue separar essas conveniências, sobretudo as emocionais.

Beijão, linda.

adelaide amorim disse...

Pois é, Crisinha. Adorei teu texto nas Tertúlias Virtuais!
Beijão

Lord Broken Pottery disse...

Adelaide,
Uma das coisas que mais admiro na vida é saber que para tudo há uma explicação. Quando vejo você falar com tanto carinho sobre sebos e livros, descrevendo com tanta emoção seu primeiro contato com Clarice, entendo imediatamente a força de seu texto.
Beijo grande

adelaide amorim disse...

Querido Lord, obrigada por sua opinião abalizada. Fico toda contente. Beijo.

king of pain disse...

Poesia crua e intuitiva, né, o que os românticos sempre perseguiram mas nunca conseguiram. Ave, Clarice! Os que tentam a poesia te saúdam.

Marco disse...

Ah, amiga Adelaide! Saudades do Sebo da Rua São José, que ficava ao lado da Casa da Borracha! Quantas e quantas vezes eu percorri aquelas prateleiras em busca de novidades!
Não foi ali que eu tomei contato com as palavras sábias de Clarice, mas tenho boas recordações dali. O seu texto é primoroso, digno da lispector. Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

adelaide amorim disse...

É isso, King, é isso.

adelaide amorim disse...

Marco, então você também curtiu aquele rei dos sebos :) Um beijo!

Anônimo disse...

teste

meraluz disse...

Teste :*

Ai, como eu gosto da Clarice...

adelaide amorim disse...

So do I, Marcinha!

Mel disse...

Oi Adelaide!

Acho que vc andou lendo meus pensamentos, pois outro dia comentei num blog que ainda não havia lido nenhum livro da Clarice e hoje pensei a respeito, não sabia por onde começar a busca!

:) Um beijo!

Jens disse...

Oi Adelaide.
Gostei de saber um pouco das tuas influências literárias (o retrato da artista quando jovem). Ao que parece Clarice é a preferência de 9 entre 10 mulheres inteligentes, talentosas e sagazes como você.
Um beijo. Até quarta.

adelaide amorim disse...

Que bom que o Umbigo pode ajudar um pouquinho, Mel. Beijão pra você.

adelaide amorim disse...

Jens, depois de saber que sou tudo isso, me deu um pigarro seguido de engasgo. Aproveita bem esses dias, viu?

Allys disse...

Acho Clarice, sempre Lispector.
rs
Ela sempre nos contagia... fica ali na prateleira tentando chamar nossa atenção, pedindo uma chance (ou oferencendo). E, volta e meia, a gente sempre esbarra com ela por aí.
Muito bom o blog!

vou add o link lá no meu, ok?

adelaide amorim disse...

Oi, Allys, vou já conhecer sua "casa".
Beijo.