sexta-feira

Poeminha da última vontade


Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossego
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre folhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos
(Como eu).
E, como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a laje do meu túmulo
Com a raiz poderosa,
Haja a vaga impressão
De que não estou na morada.
Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome,
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora,
Preso à angústia infinita
Do ser e do não ser.
Sol e chuva ocasionais,
Estes sim, imortais.
Até que um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr

8 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

Grande!!!!

Beijos, Dade...

Mylla Galvão disse...

Vim te visitar...

Millôr... o que falar dele?

Gosto dessa frase dele:

Viver... é desenhar sem borracha...


bjos

mfc disse...

As minhas homenagens a este homem doce com os doces e áspero com os
ásperos!

Mirze Souza disse...

Um belo poema de um grande escriyot, homem, humorista e poeta.

Bela escolha, Dade!

Beijos

Mirze

dade amorim disse...

Obrigada, Tânia, pela presença & comentário. Adoro quando você vem.

Beijo beijo.

dade amorim disse...

Gostei da visita, Mylla, volte sempre.
Beijo.

dade amorim disse...

Avaliou certeiro, mfc. Ele era assim mesmo. Também gostava muito dele.
Beijo beijo.

dade amorim disse...

Conheço Millôr ha tanto tempo que nem imaginava que ele pudesse desaparecer... Mas a vida é assim.

Beijos, Mirze.