quarta-feira

Memórias da classe média




A senhora se moveu de leve na poltrona e suspirou. Não bastava que os dias tivessem sempre o mesmo número de horas, que o sol batesse sempre do mesmo lado da sala e ameaçasse desbotar o adamascado do grande sofá que acompanhava a família há quase dois séculos. Não. Era preciso que Arilda dissesse sempre a mesma coisa quando aparecia na porta do hall, sempre a mesma cara meio assustada. É tarde, experimentou dizer para ver a reação da empregada, que arregalou mais os olhos e ficou muda. Não fique assim parada, Arilda, pelo amor de Deus, vá tratar de arrumar os quartos e de fazer meu café. A senhora, Eu o quê? Ela desviou o olhar e parou antes da porta da cozinha. Está... aborrecida comigo? De onde viria tanta insegurança, meu bom Deus, não fosse eu a piedade em pessoa e já teria varrido de minha casa essa criatura abobalhada, Não, Arilda, não estou aborrecida com você nem com ninguém, estou é com fome, por favor, traga meu café.

(Trecho de uma história em andamento.)

4 comentários:

mfc disse...

Um excerto de um dia a dia que vai acontecendo aqui e ali... com toda a normalidade.
As interrogações e as incompreensões fazem parte da normalidade!
Beijos.

MIRZE disse...

Tão bonito, Dade!

Ainda existe isto? Alguém que pede café? E porque não faz?

Bom saber.

Beijos

Mirze

dade amorim disse...

Com certeza, mfc.
Abraço grande.

dade amorim disse...

Ah, existe sim, Mirze. Ainda não passou esse tempo...

Beijo.