domingo

Sobre “A menor mulher do mundo”, conto de Clarice Lispector

Texto relativo à Blogagem Coletiva proposta pela Vanessa de O fio de Ariadne e pelo James, de Minha Literatura Agora

O traço que marca o texto de Clarice Lispector, relativamente aos de outros escritores contemporâneos, é o desassombro, que pode ser entendido como poesia em estado bruto ou como inconvencionalismo total. Pessoalmente, prefiro a primeira hipótese.
Primeiro porque, entre todas as definições conhecidas de poesia, prefiro aquela que não poupa os sentimentos ditos nobres ou delicados, muito mais indicados para uso interno – em relações interpessoais, amorosas ou familiares – do que para a literatura ou a criação artística em geral. Segundo porque sua franqueza crua e direta, capaz de abalar convenções e convicções intocáveis, condiz com a poesia, que é também um inconvencionalismo total.
No caso do conto em questão, a poesia e a personalidade literária da autora ficam tão claras que tornam o texto quase paradigmático do uso das palavras e da visão de mundo em Clarice. O único modo realmente poético de falar dessa mulher que mais parece um macaco é expor o efeito que sua figura e sua mera existência causam nas pessoas ditas civilizadas, e esse efeito pode ser um susto, uma estranheza expressa sob a forma de enternecimento/piedade, ludicidade, fuga ou até repulsa. O fato de a mulher ser uma miniatura perfeita e ainda por cima estar grávida, além de ser surpreendente, abre um espaço para a ternura e ao mesmo tempo incomoda as pessoas, reforçando o sentimento de estranheza e um obscuro temor: quem a vê, pressente alguma ligação com ela, compartilha um pouco de sua natureza curiosa e repulsiva, que denuncia muito abertamente o lado grotesco de cada um, que o narcisismo repudia e se nega a reconhecer.
As reações que o conto descreve ilustram bem o resultado desses sentimentos.
O explorador, habituado às extravagências da natureza, sublima a figurinha que se coça em sua presença “onde uma pessoa não se coça” e desvia os olhos “como se estivesse recebendo o mais alto prêmio de castidade”.
Há a “perversa ternura” da senhora que nunca se deveria deixar que chegasse perto de Pequena Flor, como o explorador nomeou a mulher-miniatura. Porque, como diz Clarice, “Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho.” As palavras, que parecem expressar enternecimento, na prática, podem falar de outra coisa. Como explicar por exemplo os maus tratos e maldades praticadas contra seres tão enternecedores como crianças ou animais indefesos? Como interpretar a facilidade com que sentimentos amorosos se metamorfoseiam em crueldade e violência?
Reduzir a mulherzinha a boneca é outro jeito de tomar o mal-estar nas rédeas, assim como fizeram as meninas do internato, que esconderam o cadáver da colega para brincar com ela, exercendo seu instinto maternal mais feroz – e negando a morte. Uma outra velha senhora sentencia que “Deus sabe o que faz”, o que poderia ser traduzido por “podemos ficar tranquilos, a culpa de sua existência não nos cabe e não temos nada com isso”.
Nesse texto, que fala de amor e ódio como águas do mesmo rio, Clarice consegue extrair das palavras todos os matizes, o lado obscuro e o mais glorioso da vida, tantas vezes misturados de tal modo que não chegamos a entendê-los à luz da razão – essa senhora pretensiosa, mas inepta para ir além da mera teoria.

Imagem E. Manet. Femme nue se coiffant.


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Viva o Dia do Amigo!



8 comentários:

Aline Christal disse...

Gosto de perceber o lado obscuro do ser humano e suas limitações...apesar de fã da escrita de Clarice, não conhecia este conto, já estou correndo atrás de faze-lo agora mesmo.

P.S - Adorei "Valentine"...

Bom final de semana!

Cris disse...

Oi, Adelaide,

Definitivamente amor e ódio são águas do mesmo rio.Turbulentas.Amei o som na caixa!Modeninha, você, hein???

Beijo, querida.

dade amorim disse...

Aline, é ótimo ler Clarice. Vale a pena mesmo. Um beijão.

dade amorim disse...

Cris, você sabe das coisas. Beijo beijo.

Nanda disse...

Dade, obrigada por todo carinho e paciência! Beijos e feliz dia do amigo!!! =)

dade amorim disse...

Nanda, não preciso de paciência quando se trata de você :)

Beijo beijo

Dora disse...

Adelaide. Vibrei com sua análise interpretativa desse "monstro" da literatura que é Clarice Lispector!
Diante da "escritura" dela, que parece expor em carne viva nossa condição humana tão complexa, é preciso ser alguém quase como ela...E você é. Penetrou na densidade de floresta fechada de Clarice. E a iluminou, com sua sensibilidade "adelaideana"...rs
Beijo você!
Dora

dade amorim disse...

Menos, Dora, menos. Ser uma Clarice não é pra qualquer um. Obrigada pela generosidade, viu?
Beijos mil pra você.