sexta-feira

Poeminha da última vontade


Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossego
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre folhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos
(Como eu).
E, como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a laje do meu túmulo
Com a raiz poderosa,
Haja a vaga impressão
De que não estou na morada.
Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome,
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora,
Preso à angústia infinita
Do ser e do não ser.
Sol e chuva ocasionais,
Estes sim, imortais.
Até que um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr

segunda-feira

Galeano


'Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com carrinhos porta-bagagem. Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.'

Eduardo Galeano

Mundo cruel




Eu sou, tu és, ele é. Às vezes duvidamos, mas somos todos. Sois, assim como eles são.
O que, afinal? Além de gente, bípedes implumes sem asas nem córneos bicos, essas figuras de origem biológica clara – ou quase – e metafisicamente obscura. Dizem alguns entendidos que nem existe mais metafísica. Isso arranca as pretensões mais petulantes de nossas árvores genealógicas em suas raízes últimas (ou primeiras, dependendo de se você vai de cá pra lá ou vem de lá pra cá) e impiedosamente nos põe em pé de igualdade.
Já ouço um alarido de protestos. São na certa senhoras da mais antiga aristocracia rural, cavalheiros formados em Harvard, gente com antepassados ilustres de nossa história e até pessoas simples, legalistas, conservadoras, seres medianos sem culpa no cartório que não podem admitir ser postos em pé de igualdade com gentinha da classe D. Sem falar em cintilantes emergentes carregando seus pets perfumados, seguidas de maridos algo embaraçados pela atitude beligerante das consortes.
A verdade é que somos. Não adianta espernear: viemos todos do mesmo buraco, da ameba original, da água e da célula primeva. A partir daí tiveram início evoluções e equívocos em desenfreada corrida. Parece que a sentença do Éden foi mais ou menos assim: "Do caos viestes, para o caos retornareis", e desde então homens e mulheres se empenham em construir para destruir, mentir para si mesmos, proteger para abandonar, amar à beira do ódio – não necessariamente nessa ordem, mas invariavelmente e em todos os tempos e lugares. Às vezes a própria construção já começa sem qualquer prognóstico favorável, como aconteceu com a torre de Babel e os prédios do Sérgio Naya.
Espécime ambíguo e pouco confiável que é o ser humano. Investimos recursos incomensuráveis para fazer a guerra – que é o jeito oficial e socialmente aprovado de dar vazão à fera que vive em nós. Alguns apostam a vida no jogo da violência sem lei; outros usam a lei para arquitetar golpes milionários, enquanto falta o mínimo para que tantos possam viver com decência. Quantas maneiras existem de matar?
Parece bem verdadeiro que o coração não se perturba com o que os olhos não veem. As equipes econômicas trabalham com abstrações e eternos métodos de ensaio-e-erro, dando seu jeito de fugir ao óbvio com o ar de quem sabe tudo. Entra governo, sai governo, insistem em que a economia vai bem, obrigado, embora os famintos continuem a existir em número assustador. Seus saberes passam ao largo das necessidades primárias de dar de comer a quem tem fome ou permitir uma vida digna a todas as camadas da sociedade. Interesses mais altos se alevantam, e além disso existe esse ser metafórico e mutante a que chamam mercado – álibi perfeito utilizado para preservar a ganância dos mais fortes.
Enquanto isso, criam-se programas de nomes tocantes, campanhas de efeito fugaz, e se abraça o Pão de Açúcar invocando a paz. Como se a paz fosse um orixá e não um estado de espírito. Ou então desloca a atenção para outros temas, como o BBB, novos modelos de bonés ou a brincadeira de berlinda dos comissários do governo.
Mas afinal, quem somos? Será que von Trier foi pessimista demais quando construiu sua Dogville?

sexta-feira

Educação em nosso país





Fragmento de um texto de Marcílio Oliveira

O Brasil focou seu esforço no lado quantitativo da educação e se esqueceu do qualitativo.
Essa é a principal justificativa para o baixo efeito do crescimento do nível de escolaridade
dos trabalhadores sobre a produção. O País tem o desafio de concluir o processo
de universalização da educação básica e, sobretudo, melhorar a qualidade da educação,
equiparando-a aos níveis dos países desenvolvidos.


quarta-feira

segunda-feira

Do diário de meu tio


Foto sem menção de autor.

         Passei em frente à casa de Marina. Gosto de ver aquela casa, tem um jeito que chama a gente. O jeito de Marina. Entrei lá duas ou três vezes, joguei botão com o irmão dela que mudou pra Recife e uma vez tomei lanche com eles. Depois de terminar o namoro com Marina às vezes passava lá, na esperança de vê-la na varanda como naquele dia. Mesmo contra toda lógica, teimo em pensar que isso seria como um sinal de que tudo podia recomeçar. 
           O cheiro que vinha da casa era uma viagem. Pão doce, cheiro de pão doce fresquinho, novo, dourado. Imaginei a mesa posta, o aipim desmanchando na boca, a manteiga derretida por cima e aquela cobertura morena de canela e açúcar.
          Altíssimo astral junto à janela de vidro aberta para o pôr-do-sol e as montanhas azuladas. A mesa coberta pela toalha leve de xadrez miudinho e claro, recendendo a capim-cheiroso; os guardanapos bordados de florinhas e as xícaras azuis.
         (Silêncio reverente, suspiro calado, profundo mergulho no âmago do ser.)
         As margaridas no canteiro da cerca lá fora e gerânios na jardineira sobre o muro que esconde a área de serviço.
Daria muito por esse momento. Mas não fico muito tempo diante da casa. Tenho medo de que meu desejo se realize e ela apareça na varanda, caso em que eu seria bem capaz de perder a cabeça e voltar com ela, mesmo sabendo o que viria depois. Porque é verdade que seria capaz de dar quase tudo por esse momento. Menos a liberdade.

quarta-feira

Memórias da classe média




A senhora se moveu de leve na poltrona e suspirou. Não bastava que os dias tivessem sempre o mesmo número de horas, que o sol batesse sempre do mesmo lado da sala e ameaçasse desbotar o adamascado do grande sofá que acompanhava a família há quase dois séculos. Não. Era preciso que Arilda dissesse sempre a mesma coisa quando aparecia na porta do hall, sempre a mesma cara meio assustada. É tarde, experimentou dizer para ver a reação da empregada, que arregalou mais os olhos e ficou muda. Não fique assim parada, Arilda, pelo amor de Deus, vá tratar de arrumar os quartos e de fazer meu café. A senhora, Eu o quê? Ela desviou o olhar e parou antes da porta da cozinha. Está... aborrecida comigo? De onde viria tanta insegurança, meu bom Deus, não fosse eu a piedade em pessoa e já teria varrido de minha casa essa criatura abobalhada, Não, Arilda, não estou aborrecida com você nem com ninguém, estou é com fome, por favor, traga meu café.

(Trecho de uma história em andamento.)

segunda-feira

Particularidades do umbigo




O termo umbigo já deu muito pano pra mangas, sobretudo depois que Sigmund Freud, em sua Interpretação dos sonhos, descreveu o que ele chamou de “o umbigo do sonho” – o momento do não-sentido, quando a história ou a imagem sonhada perde o pé da verossimilhança e abre espaço ao desconhecido, estranho e espantoso ambiente que nem o dito Freud conseguiu explicar: o inconsciente. Papai Sig já prestou um serviço inestimável ao mundo e à ciência com a descoberta de que a ele, o inconsciente, pode ser creditada uma legião de fenômenos e acontecimentos que de outra forma teriam que ser atribuídos (e ainda o são, apesar de tudo) a encostos, atuações, magia e outras fantasias que vêm ocupando corações e mentes e enchendo os bolsos de tantos semelhantes nossos pelos séculos afora.

Esse é o sentido mais rico da palavra, porque deixa entrever alguma coisa de que ainda não se ouvira falar de modo tão direto e que, se não serve como sumidouro de problemas ou panaceia para todos os males do espírito – e até do corpo –, ao menos sinaliza que o essencial é muitas vezes (ou será sempre?) invisível para os olhos, como já lembrava o principezinho de Exupérry. A intenção aí era menos objetiva. Mas a citação fits, porque o Pequeno Príncipe é um livro basicamente escrito com a imaginação e o coração. Um doce pra quem responder de onde procedem essas duas instâncias, mensageiras notórias do desejo humano.

Já me disseram que escrever sob a égide do umbigo talvez não leve a bons textos, porque o termo alude a tudo que diz respeito ao narcisismo e um texto composto sob essa inspiração sempre se arrisca a ser vazio de interesse para eventuais leitores. Respondi que respeitava o ponto de vista, mas que esse umbigo vai bem além do meu próprio. Todo mundo é dotado de algum narcisismo, necessário ao bom desenvolvimento, que só prejudica se assumir proporções patológicas.