segunda-feira

Lembranças do laboratório

Imagem seu menção de autor.



Enquanto o açúcar e o adoçante se acomodavam no fundo das xícaras, seus olhares se concentravam nessa operação com toda a atenção de que eram capazes, não fosse o café ficar destemperado ou doce demais. Em matéria de café se esmeravam em buscar a perfeição – bom, não só nisso buscavam a perfeição.
O dia começava a rugir lá fora. O apartamento recebia os ruídos diretamente da avenida arborizada, bonita de olhar e dura de ouvir. Concentrados na mesa redonda que recendia a pão quentinho e café fresco – o dela clareado, o dele puro, café de macho. Queriam assim, à luz da manhã no jardinzinho da varanda, mínimo divisor comum. Café, leite, pão e manteiga, nem um queijo a mais, o gosto puro do pão crocante, umas marias-sem-vergonha junto à grade com ar maroto.
A sala pequena, aberta para o quarto; de um lado a porta do banheiro, do outro a quitinete; uma bancada para o computador, uma estante e dois quadros – só reproduções dos extasiantes, em rodízio.
A casa, extensão do corpo, sem prescrições, sem moral da história, por favor: só a vida e uma alegria sem tropeços nem badulaques: o amor. Mais que suficiente.

14 comentários:

Maria Teresa disse...

Dade:
Para chegar perto do perfeito, talvez não haja necessidade de muito; entretanto, o suficiente fica difícil de ser medido na balança: às vezes transborda, às vezes fica minguado, carente de mais.
Adorei as reminiscências do laboratório.
Beijos

Antonio Furquim disse...

Uma porta, uma sala, a cozinha, os quadros, o café doce ou amargo, reticências que não ocupam uma unica coisa o amor que impera numa casa. Muito bem! Forte abraço.

mfc disse...

A descrição de um pequeno almoço saborosíssimo e pleno de trocas cúmplices de olhares... e de amor!

AC disse...

Prescindir do acessório e privilegiar o essencial é matéria que o tempo nos vai ensinando. Mas, para seu usufruto, há pessoas que aprendem mais depressa que outras.
Ainda bem que é assim, há coisas que estão para lá da questão das igualdades.

Beijo :)

Adriana Karnal disse...

DAde, eu sempre gosto dos teus escritos...mas me perco eu teus blogs,rsrs

MIRZE disse...

PERFEITO, DADE!

Trouxe-me uma paz antiga que eu lembro que tinha!

Beijos!

Mirze

dade amorim disse...

Sim, Maria Teresa, às vezes o mínimo é insuficiente.
Beijo e obrigada por sua presença, que me deixa sempre contente.

dade amorim disse...

Essa é a ideia, Furquim.
Obrigada e um abraço grande.

dade amorim disse...

O essencial, não é mesmo, mfc?
Abraço grato pela querida presença.

dade amorim disse...

Tem rezão, AC. A igualdade tem muitos nomes e estágios, não é mesmo?
Abraço grande.

dade amorim disse...

Gracias, Adriana. De qualquer modo, tua presença é muito prazerosa.
Beijos.

dade amorim disse...

Mirze querida, essa paz é um tesouro.
Beijos.

Rejane Martins disse...

À parte qualidades e características de teus personagens, uma extensão de corpo que se conjugue casa sem moral da história, só a vida - é mais que suficiente - é imprescindível.
Teu texto é amoroso, cuidadoso e belo, Dade.

dade amorim disse...

Obrigada, querida Rejane.
Beijo pra você.