segunda-feira

Homenagem ao multipoeta aniversariante de hoje

Fernando Pessoa/Bernardo Soares



Leve, como uma coisa que começasse, a maresia da brisa pairou de sobre o Tejo e espalhou-se sujamente pelos princípios da Baixa. Nauseava frescamente, num torpor frio de mar morno. Senti a vida no estômago, e o olfacto tornou-se-me uma coisa por detrás dos olhos. Altas, pousavam em nada nuvens ralas, rolos; num cinzento a desmoronar-se para branco falso. A atmosfera era de uma ameaça de céu cobarde, como a de uma trovoada inaudível, feita de ar somente.

Havia estagnação no próprio voo das gaivotas; pareciam coisas mais leves que o ar, deixadas nele por alguém. Nada abafava. A tarde caía num desassossego nosso; o ar refrescava intermitentemente.

Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! São como esta hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a meditação. Mas há maresia no meu propósito, e a baixa-mar em mim deixou descoberto o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro.

Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos pensamentos com o ar e o rio, para dizer que me dói a vida no olfacto e na consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do Livro de Job, «Minha alma está cansada de minha vida!»

Livro do Desassosssego

10 comentários:

Maria Teresa disse...

O poeta ouve trovoadas de ar, sente maresia nos seus propósitos, descobre enredos com as sensações. A cada uma das comemorações de seu aniversário, renova-se em nós a esperança de que as Pessoas se alimentem de profundidade, de emoções maduras.
Beijos

AnaC disse...

Tudo que ele escreveu, sob qualquer nome, foi genial. Acho que devia ser mais divulgado, mais valorizado. Precisamos de obras desse nível, que nos engrandecem só de ler.

Beijo amigo, Dade querida.

Halem Souza disse...

Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações supostas!

É essa dimensão "especulativa" da escrita de F. Pessoa que o faz ser sempre lido e relido.

Mas, como oito em cada dez leitores, sou mais chegado a Álvaro de Campos.

Boa lembrança de sua parte; homenagem apropriadíssima.

dade amorim disse...

Sim, Maria Teresa, é esse o "segredo" da eterna atualidade de Pessoa.

Beijo grande,

dade amorim disse...

Concordo, Ana. Apesar de ser um dos poetas mais lembrados, FP merece mais popularidade, mais leitura, acima de tudo.

Beijo beijo.

dade amorim disse...

Também me incluo nessa maioria, Halem. AC fala mais diretamente à sensibilidade do leitor.

Beijo pra você.

Nanda disse...

Alguns dizem que o que é bom dura pouco. Mas se a gente pensar bem, o que é bom é eterno! Beijos, Dade!!!

dade amorim disse...

É isso, Nanda, o que é bom não acaba nunca.

Besitos.

Analuka disse...

Ótima postagem! E que vivam os poetas e a poesia, pulsantes e desassossegados, inquietos e inquietantes, em tantos tempos e lugares! Beijos alados, Adelaide.

dade amorim disse...

Viva aos artistas, Ana!
Beijo amigo pra você.