terça-feira

Mulher escrevendo




Escrever era só a sobra. O que restava depois que o dia ia se cumprindo e ela cumpria seu papel – a casa bem cuidada, as garotas na escola, o almoço tão bem temperado, a roupa limpa e guardada, não fossem os vizinhos – ou pior, o marido – chamá-la de relaxada. Tinha uma reputação a cuidar. Dias ainda havia para as compras, estantes e tanta coisa por limpar e arrumar. E sempre, sempre os eternos ciscos, migalhas nas bancadas da copa, poeira aqui e ali, a gordura mal limpa no fogão. Tinha empregada, sim, mas cada dia ela queria fazer menos e sair mais cedo. E ao fim do dia, os momentos de ócio necessários para azeitar as ideias e deixar fluir certa energia semicósmica – porque em parte vinha era de dentro. Nem sabia se era mesmo energia: era mais concreto, como liberar alguma coisa física, um miniparto. E porque nada ainda estava dito, era então preciso colher palavras, limpar a terra, o sangue, a aura estranha e revirá-las sobre o teclado e plantá-las no monitor entre as outras, em sequência de alguma lógica, às vezes nem isso. Sentir e pesar seu efeito, seu tempo de validade, porque às vezes ficavam murchas, pobres, indigestas ou indigentes de sentido, caso em que nada resolviam de sua necessidade: as palavras são como as cores para o pintor. Há um efeito final a levar em conta que, esse sim, vem de dentro, e é preciso ser fiel a ele. Então deixava passar um tempo e voltava a elas, as palavras. Assim podia ter uma ideia mais clara do que estariam fazendo ali, corrigir algum rumo sem destino como um piloto em vôo. O voo era sempre meio cego. Havia tardes e noites em que as palavras pareciam fluir tão facilmente, e ela enchia páginas e páginas seguidas, contente, realizada, achando o tempo um sonho. Mas não durava muito e a dor secreta dos dias voltava a se insinuar. A dor era sempre, não cessaria nunca e se expressava de um jeito surdo, devorando as entrelinhas. Chegava de leve, depois aumentava de intensidade e afinal causava um mal-estar que a obrigava a se curvar como quem carrega um peso maior que suas forças. Então às vezes apareciam poemas no monitor.

17 comentários:

Amélia disse...

Gostei do texto.será que posso colocar no meu blogue na secção
escrever?beijo amigo neste Dia Mundial das Crianças.

Amélia disse...

Gistei deste texto, amiga.Será que posso colcoar no meu barco de flores?Beijo

Maria Teresa disse...

Dade:
É assim mesmo exatamente assim. Nunca havia pensado no escrever como sobra, mas você tem razão, é isso. As sensações, a mania de arrumação e a necessidade de preencher, de ser pallha entre cristais para que a vida prossiga harmônica, você se lembrou de tudo. Entretanto, fiquei maravilhada com o burilamento das sobras que você foi juntando aqui e ali; você as amalgamou com paciência de ourives e deu no que deu.
Bjo

dade amorim disse...

Amélia, será uma grande alegria :)

Beijo

dade amorim disse...

Perfeito, Maria Teresa.
Obrigada pelas boas palavras.

Beijo

Carol Timm disse...

Oi Dade,

Com excessão da parte das crianças, achei que tinha sido escrito para mim.

Como nos parecemos no desdobramento para encontrar prazer nas palavras ainda que no tempo das sobras.

Beijos,
Carol

Jacinta Dantas disse...

E penso então que escrever é reescrever, recontar o sonho, revisitar o caminho que vamos fazendo. E fazer da dor - poesia; e fazer do peso - uma canção. E articular o cotidiano com graça e redendo Graças, com linhas e entrelinhas realiando o viver.

Que viagem pude fazer agora passeando pelo seu texto. Obrigada.
Bjs

Bia Pontes disse...

ô querida... sensacional.
Que bela maneira de construir o texto e conduzir tão signigicativas palavras! E que sentimento!
adorei. simplesmente.

beijos!

dade amorim disse...

Jacinta, gostei do comentário e da "viagem", viu? Está convidada a viajar por aqui sempre que quiser.

Beijo.

dade amorim disse...

Carol, ser mulher continua a ser uma tarefa das mais difíceis, você não acha?

Beijo beijo.

dade amorim disse...

Bia, obrigadíssima pela visita e pelo comentário generoso.

Beijo grande.

Anônimo disse...

Mais fiel que essa descrição, só a realidade que ela retrata com perfeição.
Bjs da AnaG

dade amorim disse...

Obrigada pelo comentário (alentador).

Beijo, Ana.

Nanda disse...

Seu escrito me fez lembrar de uma amiga; ela é dona-de-casa e está terminando seu primeiro conto; super animada com a nova experiência. Sempre bom começar algo novo, renova e alegra.

dade amorim disse...

Tomara que sua amiga tenha sucesso e muitas compensações com a escrita. Principalmente de ordem pessoal, como a satisfação de criar alguma coisa nova, que é muito gratificante.

Beijo grande pra você, Nanda.

Analuka disse...

Cara amiga Adelaide, que lindo este teu texto sobre o parto das palavras!!!... A descrição-narrativa poética do processo de partejar está perfeita... e adorei a comparação com a criação pictórica, hehehe!... Sim, por vezes, a sensação de que precisamo "dar algo à luz" é tão forte que chega a ser física, transborda pela pele...e, entre dores e epifanias, às vezes nasce um novo pedaço de nós, este outro que nos carrega e liberta... mesmo que o prazer seja, sempre, parcial e passageiro! Beijos pintados e alados, querida.

dade amorim disse...

Você conhece bem intimamente esse "parto" da criação, sabe o quanto às vezes é difícil situar-se no tempo que resta para criar.
Obrigada pelo comentário, sempre bem-vindo.
Um beijo.