segunda-feira

Uma história incompleta cap. 10

10

A reunião dos quatro em casa de Pôncio e Larissa foi marcada por um clima agridoce, que com o passar das horas foi ficando mais doce do que acre e acabou em puro mel. Líria chegou com um ar meio formal e Pôncio se esforçava para ser o mesmo de um ano antes, mas acabou desistindo e sentou ao lado dela no sofá debaixo da janela, um pouco distante do centro da sala. – Líria, acho que você já sabe por que fiz questão de convidar vocês dois para virem jantar conosco hoje. Acabei de concluir um trabalho que foi penoso e demorado, que me deu dores de cabeça e ainda vai dar algumas. – Por quê? Você não ficou contente com o resultado? – Ah, sim, por esse lado estou bem satisfeito e já comecei a preparar o livro sobre a história triste desse estádio e os personagens que fiquei conhecendo por causa dela. A questão é outra. Mas não é sobre isso que pretendo conversar com você agora.
Ela se empertigou e ficou esperando. Sentia um pouco de vergonha pela perturbação causada por tantos e-mails apócrifos, meu Deus, apócrifos, parece que estou falando da escritura sagrada. Mas não era sua vez de falar. Queria ver a atitude do ex-amigo, quase amigo de novo. De qualquer jeito, não pretendia voltar a mexer naquela sopa de ódio e ressentimento.
— O que preciso muito te dizer, Líria, é que agi como uma impulsividade desastrosa e fui bastante leviano quando me intrometi na vida de vocês dois. Logo de vocês dois, que sempre foram meus melhores amigos, as pessoas a quem sempre quis tanto bem, você nem imagina, – está bem, Pôncio, vamos pular essa parte da conversa. Sei bem o que nos custou essa leviandade de que você está falando, já tive vontade de matar você, mas agora entramos em outra fase. Não vou fingir que não aconteceu nada, mas acho que é tempo de ver as coisas com outros olhos. Me dá um beijo e vamos tentar recomeçar. Trocaram dois beijos fraternais e voltaram para junto de Laio e Larissa, que conversavam do outro lado. – Já ia chamar vocês para a mesa, disse ela. Durante a entrada, Pôncio apresentou desculpas formais aos amigos, sendo devidamente perdoado. Houve um brinde de champanhe, um presente à hora da sobremesa e depois do café ele pegou o violão e cantaram juntos, lembrando um antigo hábito que vinha do tempo de solteiros. Estavam um pouco altos, e a reconciliação os tornava mais felizes do que imaginavam ser possível.
Na semana seguinte, Laio e Líria aproveitaram um mês de férias por tirar e viajaram para a França, um projeto antigo, do começo do casamento. – Acho que temos que agradecer ao Pôncio, ela disse, sendo despertada por beijos e carícias num hotel da Provença. – Isso lá é hora de pensar em Pôncio – Laio respondeu, apertando seu corpo junto ao dele, tomado de urgência.


A fita gravada com a conversa entre os três, no café Tal e Qual – que Pôncio não pretendia envolver na história, em atenção ao proprietário, um homem de boa vontade – estacionara em sua gaveta de documentos confidenciais. À falta de um cofre, ele a mantinha trancada a três chaves com um dispositivo de segurança estrategicamente colocado na parte de trás, por baixo da escrivaninha. Tinha avisado o redator-chefe, mas Loredo – assim se chamava seu chefe – preferiu amadurecer a ideia, antes de fazer alarde sobre o caso. – Vou consultar o Castro, do jurídico. Ou melhor, vamos nos reunir com ele hoje mesmo, para analisar a questão. É preciso prudência com essas coisas. Mas também é preciso aproveitar enquanto a fita está quente. Te dou um retorno daqui a pouco.
Reunião marcada, logo após o almoço Pôncio se dirigiu à sala do redator e lá permaneceu durante mais de duas horas, sem celular. Não atendeu portanto à chamada de Mônica Lessa, que ligou para ele duas vezes e deixou mensagens um tanto ofegantes na secretária eletrônica do escritório. Também não recebeu o recado de um assessor de Lauro, querendo marcar “um encontro de seu interesse”. Tentava acompanhar em todos os detalhes os pareceres do Castro do jurídico e suas instruções quanto aos possíveis riscos a que a operação toda expunha o jornalista e, mais remotamente, mas não de todo remotamente, sua família. – Mas então o Lauro é um bandido, chefe de quadrilha ou coisa assim? Castro olhou para ele através da fumaça do parliament que nunca abandonava, – puxa, Pôncio, que foi que você bebeu na hora do almoço? Um cara que se envolve em tais, digamos assim, negócios é obviamente um bandido, um escroque, meliante que só difere do chefe do tráfico na favela pela roupa que veste e pelo lugar onde mora.
Pôncio imaginou que o advogado o considerasse um panaca completo, e tentou remediar a má impressão. – Para um senador da república sequestrar a família do jornalista que revelou seus podres à nação é de um baixo nível lamentável. – E ele é de um baixo nível lamentável. Ele é o fruto de séculos de políticas de educação e de trabalho calculadamente insuficientes e falhas, destinadas a manter os eleitores no nirvana dos alienados e garantir duas coisas fundamentais aos lauros munhoz da vida: carência econômica que os mantenha à mercê de uma esmola para sobreviver e incapacidade para processar corretamente as informações que chegam até seus ouvidos, muitas vezes já deturpadas. Eleitor não pode dispor de capacidade crítica. Toda notícia que ouve deve ser imediatamente avaliada segundo um critério único e exclusivo, que consiste em tentar descobrir em que os acontecimentos podem servir a suas necessidades e como tirar algum proveito deles. E os lauros alimentam esse estado de coisas, porque sem isso não conseguiriam chegar aonde querem. A desgraça dos famintos é a fortuna dos lauros, de modo que eles são os primeiros a incentivar essa atitude em suas campanhas e nos contatos diretos com a turba. No senado, na televisão ou nas declarações para o grande público, mantêm uma pose condigna e mentem tanto que se mentira matasse não conseguiríamos manter um só poder constituído nesta terra. Mas são esses eleitores que garantem a carreira e as venturas de nossos legisladores, de grande parte do executivo e por tabela as dos juízes e funcionários seus protegidos e corruptos como eles mesmos.
Loredo se mexia na cadeira, meio ansioso, e Pôncio teve um leve arrepio diante do quadro dantesco. Não ignorava a realidade crua da política de seu país, mas as palavras um tanto exaltadas do Castro tiveram um efeito de quase susto sobre ele. Pensou na família, nos filhos indo e vindo da escola, do inglês, da academia, da natação. Esteve a pique de dizer que preferia então destruir a tal fita e deixar tudo assim mesmo – mas assim mesmo como? Não poderia agora sair desmentindo a matéria que havia assinado com tanto entusiasmo e que pretendia aproveitar para um livro que, ele acreditava, lhe traria alguns trocados muito bem-vindos e, tinha esperanças, elevaria seu nome à galeria dos jornalistas de primeira linha.

sexta-feira

Uma história incompleta cap.9

9

Larissa apareceu na companhia em que Líria trabalhava, pouco depois das duas horas da tarde, com uma expressão marota, parecendo muito feliz. – Surpresa! – disse, da porta da sala dos recursos humanos, com um buquê de rosas-chá tão lindas, que a outra abriu a boca de puro espanto. Abraçaram-se como se não se vissem há anos, e Líria, ainda sem palavras, convidou-a a sentar numa das poltronas junto à mesinha de centro, no canto onde costumava entrevistar os casos mais complicados. – Meu Deus, quanta beleza, disse, contemplando as flores. Preciso de uma boa jarra – e foi até o interfone. – Hoje é dia de festa para mim, disse Larissa. Fiquei sabendo da novidade e saí na mesma hora para te dar um beijo. – Ficou sabendo? – É, o Laio me ligou, feliz da vida. A outra baixou um pouco a cabeça, com ar modesto. – Ah, a gente ainda nem entrou com o requerimento de anulação do pedido de divórcio. Estávamos esperando se completarem os dois anos da separação, porque antes disso não é possível se divorciar. No início... – Ainda bem! Essa lei é bem sábia. Porque depois de concedido, não há como anular. Ainda bem! Líria sorriu pela primeira vez. – Ai, Larissinha, estou tão feliz! – mas logo se lembrou da história toda, da culpa de Pôncio, e não disse mais nada.
Larissa percebeu o que passava por sua cabeça. Mais do que uma intuição, leu na expressão da amiga o ressentimento ainda bem forte, o esforço para não demonstrar o que sentia. – Estou aqui também em uma missão diplomática, disse, sorrindo. Pôncio me pediu que falasse com você, que desse a ele uma chance de tentar apagar o mal que causou. E acrescentou, diante do gesto vivo de Líria, antes que ela pudesse dizer alguma coisa – está disposto a te pedir perdão, pedir perdão a vocês dois, e quer marcar um encontro lá em casa, se vocês concordarem. O silêncio não impediu que Larissa repetisse o convite, dessa vez junto de Líria, abaixada ao lado de sua poltrona. Não havia outro jeito, era preciso aceitar o armistício. Depois se veria como as coisas iam ficar.


Para sua surpresa, Pôncio chegou ao café e encontrou Lauro Munhoz sentado a uma das mesas laterais na companhia de Mônica Lessa. Faltavam ainda vinte minutos para as seis horas. Procurou o dono da casa com um rápido olhar, mas não o viu atrás do balcão. A mesa de fundo lá estava, com a placa de reserva. Lauro ficou de pé para receber o jornalista. Mônica não parecia contrafeita e cumprimentou-o até com certa alegria. O senador esperava que ele sentasse, mas Pôncio preferiu mudar o rumo que as coisas estavam tomando e convidou-os a segui-lo. – Reservei um lugar mais discreto para nossa conversa, senador. Creio que vai gostar – e encaminhou-se para a mesa escolhida, desejando que o gravador estivesse lá. Munhoz pareceu surpreso, titubeou um pouco, mas a atitude resoluta e gentil do jornalista não lhe deixava outra saída senão fazer sua vontade. Na verdade, Mônica parecia mais surpresa que ele. Pôncio esperou que todos sentassem e ocupou seu lugar, fechando um triângulo nada amoroso. Mantinha uma expressão cordial, porém um tanto solene, e observava os dois, que recebiam mais luz que ele, graças a uma lâmpada discreta e providencial, embutida na coluna, que casualmente lançava seu foco sobre as duas cabeças. Esperou que Lauro falasse primeiro. Olhava-o de modo encorajador, e o senador não demorou a começar um discurso cauteloso de meias-palavras que o bom entendedor ia decifrando sem dificuldade. Mônica estava muda e, agora sim, parecia meio embaraçada.
O ex-prefeito, ou prefeito do estádio, como ficou conhecido na época do desastre – por conta do qual havia perdido feio para o concorrente da oposição na eleição seguinte – tentava achar uma brecha, talvez um momento em que o rosto de Pôncio estivesse menos atento, os olhos menos perscrutadores, fitos nos seus. Limpou os óculos, pigarreou, ajeitou-se na cadeira. – Sou todo ouvidos, senador – disse Pôncio, que começava a achar aquilo divertido. Mônica dava sinais de inquietação, e ele percebia os gestos acelerados com que acendeu um cigarro e logo o apagou com a sola do sapato. – Lauro, disse ela, a certo ponto, sem conseguir se conter, deixa que eu falo com ele. Pôncio vai entender.
Olhou para ela à espera de uma surpresa. Suas intuições não costumavam deixá-lo na mão. Então o arquiinimigo agora era de novo Lauro, nesse tom ameno, até meio meloso com que ela o pronunciara. Mentalmente via os dois numa conversa que pouco a pouco ia se tornando mais amistosa; via também alguma coisa que corria das mãos do senador para as dela, e via um sorriso e uma troca de olhares. Esperou que ela por sua vez se ajeitasse melhor, – Essas cadeiras parecem meio incômodas, não? – ele disse, num tom inocente, e ela sorriu sem vontade, – Não se preocupe, está tudo bem. Tomou fôlego – com muita graça, como Pôncio pôde observar – e continuou a falar suavemente da antiga amizade – fomos como irmãos – e de sua inconformidade diante daquele mal-entendido todo. – Cheguei realmente a pensar que Lauro havia surtado, quando percebi que fugia de falar comigo e me deixava naquele sufoco, sem recursos para salvar minha mãe, coitada, que Deus a tenha. De um relance, pareceu a Pôncio que ela ia chorar, mas logo retomou o controle e continuou falando sobre um sofrimento atroz e a falta que aquela amizade iria fazer em sua vida, até que se revoltou e decidiu tomar uma atitude radical contra ele. – Agi de acordo com meu senso de justiça, mas nós não somos mesmo ninguém para julgar os atos alheios.
A esse ponto, acreditando que tinha acertado em cheio em suas suposições, ele observou a expressão embevecida com que Lauro Munhoz a contemplava. A coisa já foi longe, concluiu para si mesmo, e agora passamos do suborno à chantagem emocional – uma mulher sozinha e carente, um cara com cacife para reconquistá-la em nome do passado e uma ou duas noites de amor bandido. Agora o senador tecia sua lenga-lenga e deixava transparecer um coração tão sensível que Pôncio teve vontade de lhe dar as costas. – Ninguém sofreu tanto quanto eu com aquela tragédia – ousou afirmar, mas diante do olhar severo do jornalista aliviou um pouco o tom e emendou – a não ser é claro aquelas pobres famílias enlutadas e os que morreram ou se feriram gravemente no sinistro.
Um homem que chama aquilo de sinistro numa conversa de café merece cadeia, pensava ele, quando Mônica desferiu o golpe final sobre sua ira, que se tornava difícil de conter, – eu e Lauro conversamos muito, durante horas, antes que ele tomasse a inciativa de procurar você. Eu o encorajei, disse a ele que você é um homem de bem, um cara ético, e que na certa compreenderá, afinal nem tudo na vida é o que parece ser, e quando nos enganamos devemos ter uma chance de corrigir nossos erros. É o que estou tentando fazer. E mesmo sabendo o quanto é difícil voltar atrás, depois dos atos que cometemos, estou disposta a desmentir minhas declarações sobre o Lauro – e os dois deram-se as mãos descaradamente.
Pôncio olhou para ele e perguntou – quanto o senhor vai me dar para desmentir minhas declarações também? – ao que o ex-prefeito teve um gesto difícil de definir, antes de enfiar a mão no bolso do paletó e lhe estender um cheque de dois milhões de reais. Pôncio olhou a assinatura do cheque, mas não era o nome de Lauro que constava na última linha à direita, e a conta pertencia a uma firma de que nunca ouvira falar. Então devolveu o cheque ao senador, – não aceito cheques, doutor Lauro, e este indagou, com voz clara e cordial, – prefere então em espécie?

***

Na cantina da companhia, Líria falava com Ana Rosa e Marlon sobre a reconciliação. – Você tinha dito que os laços não tinham sido só desfeitos, que estavam cortados a tesoura e não havia volta, lembrava Marlon, com certo mau gosto. – Foi um tombo, uma decepção. Achei que Laio estava convencido de que era um corno, que tinha tomado aversão a mim. – E o que foi que ele fez esse tempo todo? Ela agitou a cabeça numa negativa enérgica, – não sei, mas também não estou interessada em saber. Nem durante o tempo em que acreditava que não haveria volta possível me preocupei com isso. Ninguém me informou de nada a esse respeito, e se alguma coisa de sério tivesse acontecido na vida dele, eu na certa ficaria sabendo. – Ah, é verdade, confirmou Ana, os abutres adoram uma fofoca. – Isso não foi problema para mim, e não vai ser agora. Ele é um homem, pode ter se virado por aí, não vou sair investigando. Também senti falta de uma trepada de vez em quando. Fui eu quem o expulsou de minha vida, não tinha como reclamar. Se ele fez isso, acho que não foi nada para durar, não criou outros laços, mas pode ser que tenha obedecido à natureza, não sei. Lembrou então da natureza de Marlon, e olhou para ele, que lhe pareceu pensativo. Mas o que estava dito não tinha como ser apagado. – Está na hora, disse Ana, levantando e dirigindo-se à caixa.


quarta-feira

Uma história incompleta Cap 8



8

– Sofre-se muito com a solidão, especialmente quando não era desejada, ele disse, e de imediato se arrependeu. Não pretendia queixar-se da vida nem provocar a piedade dela. – Acho que há coisas muito piores, como a ingratidão, a injustiça, o abandono, ela respondeu, pousando a xícara sobre o pires. Laio não se moveu. Se depois de doze meses era isso que tinha a dizer, então – Mas me conta como está sua vida, ele disse, e Líria deu de ombros. – Não há nada pra contar. Vamos direto ao assunto. Estou pensando em acionar o seu amigo, e preciso ter certeza de que você não vai ficar contra mim e depor a favor da figura. Ele a olhou longamente e balançou de leve a cabeça. – Preferia que você não fizesse isso. As palavras lhe saíram lentas e num tom mais grave do que o habitual. – Por que não? Aceito a acusação, abaixo a cabeça e consinto em ser aquela mulher traidora que ele inventou? Ou você se recusa a – Calma, Líria. Não me recuso a coisa nenhuma. O que houve com a gente foi uma intromissão infeliz de um cara bem intencionado. Daquelas boas intenções que vão para o inferno, como se diz. – Ah, entendi. Então é preciso poupar o pobrezinho. – Não, nada disso. Não é isso, tenta entender. Fazer reviver uma história mentirosa pode ser pior do que ficar calado e deixar que ela seja esquecida. Um processo é um desafio. Se você ganhar, a reputação dele como jornalista fica seriamente prejudicada. Se ele vencer, você fica para sempre tachada de adúltera, mesmo que não tenha sido verdade. – Mas o que eu mais quero é ver a reputação daquele canalha rolando pelo chão.
Laio se debruçou sobre a mesa e olhou-a nos olhos. – Mas ele, aquele canalha, como você está dizendo, não é mais o mesmo. Está em dúvida quanto ao que fez, acha que pode ter-se enganado em relação a você. – Ele te enrola e você acredita. Estive com teu amigo há uma semana, e ele me tratou com aquela superioridade arrogante de sempre. Se inventou essa história foi pra te tirar do páreo, pra te envolver de novo, como já fez antes. – Não é verdade. Estive com ele depois da tua visita. Me fez ir ao estúdio para conversar, mostrou-se arrependido e inseguro. Bancou o durão com você, provavelmente pra não te dar o gostinho da vitória, e deve estar se sentindo mal com tudo isso. Eu mesmo saí de lá irritado com ele, fui duro, deixei o cara falando sozinho. – Acho interessante que só agora você se irrite. Ele destruiu nosso casamento, arruinou tudo que nós tínhamos, e que não era pouco – ou era? – Então, Laio disse, tocando pela primeira vez em sua mão, em nome de tudo que nós tivemos, desiste dessa ideia.
Pode ter sido só uma impressão, quem sabe um desejo velado, mas pareceu-lhe que ela estremecia ao toque de sua mão. – Se tudo não passou de um engano, vamos tratar de esquecer, acho que é o melhor para nós todos. Líria resistia, não queria desmoronar assim aos olhos dele. – Se um ladrão tivesse levado nosso carro ou nossas joias, na certa teríamos registrado o roubo e tentado reaver o que era nosso. Laio estreitou a mão dela, que agora certamente tremia dentro das dele. – Não há termo de comparação entre o que nós perdemos e o carro e as joias. – E além disso, ela falou depois de alguns minutos lutando para não chorar, nós nem tínhamo joias. As primeiras lágrimas correram quando Laio se inclinou para beijá-la. Foi um beijo intenso, longo, que chamou a atenção das poucas pessoas em outras mesas.
A quinta e última parte da reportagem de Pôncio sobre a tragédia do estádio trazia o depoimento de Mônica Lessa e os documentos que ela pacientemente conseguira recolher e incriminavam Lauro Munhoz com dados agora irrefutáveis. Pôncio estava satisfeito, mais que satisfeito com o resultado da pesquisa e a eficiência de Mônica, que afinal mostrava a que viera.
Tinham convivido quase diariamente durante essas três semanas. A cumplicidade e o companheirismo, insinuados desde o primeiro encontro, agora eram laços quase sensíveis que transpareciam nos olhares, nas entonações da fala e até, em alguns momentos, em toques físicos – um abraço mais longo do que pede a etiqueta, um aperto de mão que se demora, o beijo supostamente fraterno que hesita um momento entre a face e a boca. Pôncio estava bem consciente da atração que crescia entre os dois. Isso o preocupava e deleitava em porções tão equivalentes que seria difícil prever a atitude a tomar daí em diante. O trabalho estava feito, não havia razão para continuar encontrando Mônica. Longe dela, na certa tudo se diluiria em distância e esquecimento e nada iria mudar na vida dele. Era cedo para tomar qualquer decisão, mas talvez fosse tarde para deixar que ela se distanciasse sem uma palavra sobre o fato.
O que deveria ser o último encontro, mais comemorativo do que de trabalho, deu-se no fim da tarde da terça-feira depois do encerramento da série. Na segunda do encerramento, um grupo da redação se reunira com ele para um chope e Larissa tinha participado da festinha. Tudo estava bem dosado, os ânimos alegres, e na volta ela preparou o ambiente, vestiu-se para trazer de volta as noites de alguns anos antes e envolveu o marido num jogo de carícias sem limites. Ele nem pensou em resistir. Larissa ainda o atraía bastante, apesar do tempo e da rotina. Deixou-se levar de volta ao paraíso que haviam conhecido nos primeiros anos, quando a visão da mulher o atirava numa espécie de vertigem. A luz da manhã não os despertou, e se não fossem as batidas de Cinho à porta do quarto, talvez tivessem dormido até o início da tarde em que Pôncio iria ao que, ele decidiu assim que abriu os olhos, seria o último encontro com Mônica Lessa.
Quando chegou ao escritório naquela tarde encontrou um envelope que alguém havia jogado por baixo da porta. Estava endereçado à redação do jornal, carimbado com um urgente em grandes letras vermelhas. Preso por um clipe, um bilhete manuscrito avisava que o envelope tinha sido entregue na noite anterior. Abriu com certa apreensão, imaginando o que poderia ser aquilo, e quando deu com o nome de Lauro Munhoz Clemente no papel timbrado sua curiosidade ensombreceu um pouco. Depois das flores vêm os ossos, pensou, largando-se na cadeira de braços para saber o que desejaria o senador. O bilhete dizia apenas: Ao jornalista Pôncio Rodrigues de Mattos. E mais abaixo: Prezado sr., gostaria de agendar uma troca de impressões, que acredito produtiva, a respeito de seu brilhante trabalho de reportagem publicado na série ora encerrada em seu jornal. Peço-lhe que compareça ao café Tal e Qual, esquina da rua Raul Pompeia com Júlio de Castilhos, hoje, dia 29 de setembro, às 18h. Desde já agradecido, L.M.
Pôncio balançou a cabeça e suspirou até deixar os pulmões flácidos, completamente esvaziados. Que arrogância, pensou. Depois lhe ocorreu que o sujeito talvez tivesse vindo ao Rio só para cuidar desse assunto, mas logo resmungou – não é possível, ele deve ter assessores saindo pelo ladrão, por que viria pessoalmente? A não ser que as intenções sejam tão escusas que não tenha tido coragem de encarregar alguém da – entrevista? entrevero? Ligou para a redação e chamou Caio Benévolo, encarregado de uma coluna de fofocas políticas. – Você é um jornalista de certo prestígio, Pô. Ele não ia se arriscar a mandar alguém no lugar. – Obrigado pelo prestígio, mas o que eu quero mesmo é saber como pegar esse peixe no pulo. O outro fez um silêncio de alguns segundos, e depois disse apenas – leva um gravador e registra tudo que ele disser, ora. - E se estiver com um gorila e me revistar no banheiro? Caio riu, mas concordou – é, pode até ser. Faz uma coisa: pede ao cara do café pra instalar o gravador debaixo do tampo da mesa. – E o brucutu não vai manjar esse truque? – Aí é jogar com a sorte, cara.
Chegou ao café Tal e Qual às três da tarde e procurou o dono. – Vou lhe pedir um favorzinho, disse, depois de se identificar. Posso até lhe oferecer uma chamada na seção de gastronomia do domingo, que tal? Estendeu o gravador ao homem, que de repente se tornara muito atento. – Quero reservar uma mesa para as seis horas, e gostaria muito que desse um jeito de prender esse aparelhinho debaixo do tampo, lá pelas cinco, depois que colocar a placa, para evitar que alguém ocupe a mesa à última hora. Pode deixar ligado, a pilha está nova. O dono do café se endireitou e pareceu refletir por um instante. – Senhor, o que é que está acontecendo? Alguma investigação sigilosa? Tem envolvimento com a polícia? – Nada disso, amigo. É só uma brincadeira com um amigo. Uma surpresa. Pode ficar tranquilo, é só isso mesmo. Não se preocupe, tem minha palavra. Vamos escolher uma mesa que não fique muito à vista, propôs Pôncio, sentindo que o sujeito vacilava, desconfiado. Levou-o até uma mesa de fundo, meio disfarçada por uma coluna larga de mármore. – Pode ser essa aqui. Depois que eu e meu amigo sairmos, por favor, deixe passar uma meia hora – não antes disso – retire o aparelho de lá e guarde que venho buscar logo em seguida. Mas não entregue o aparelho a ninguém, por favor. Como eu disse, é um pequeno favor que vai lhe render uma propaganda inteiramente grátis.


terça-feira

Uma história incompleta cap.7

7

Na semana seguinte, a segunda parte da reportagem falava dos números iniciais do show, do sucesso do novato Tasso Gouveia, que desapareceu no desastre junto com os três músicos que o acompanhavam. No último box, sob o título “Desídia e omissão”, insinuava-se que o prefeito Lauro Munhoz poderia ter sido mais atento quanto à segurança das obras sob sua administração, o que na certa teria evitado a calamidade e a perda de tantas vidas. Às dez horas, em sua mesa no fundo da redação, Pôncio relia a matéria, pensativo, e um suspiro escapou de seu peito. – Sua besta, pensava – ou falava? – você está querendo um pouco mais de confusão em sua vida. Já entendi, te conheço há quarenta e seis anos, você não me engana. O primeiro passo foi a confissão desnecessária, a indignação justíssima de seu amigo, quem sabe se ainda, e o peso dessa culpa que não tem jeito, vai pendurada em sua carcaça pelo resto da vida. Agora você se castiga por ser tão estupidamente babaca e honesto e publica isso, louco pra ser processado pelo senador também, que um processo só é pouco, seu verme incongruente. Outro suspiro. Não podia ter feito aquilo, praticamente acusando um senador da república sem uma prova efetiva de sua culpabilidade. – Merda, rugiu, onde é que eu estou com a cabeça? Uma onda de calor lhe subiu ao rosto e ele pensou até, por um instante, em recolher a tiragem daquela maldita primeira edição. Tinha o laudo que Mônica lhe entregara, triunfante, mas o laudo não valia nada. Era um mero instrumento particular registrado em cartório, assinado por um ilustre desconhecido – Antônio Malafate – supostamente empregado da prefeitura à época da coisa toda. Malafate declarava que a obra de reparo do estádio, “que já apresentava riscos e fora precariamente restaurado para o show”, não passava de uma promoção que “daria prestígio ao município, em um ano que precedia as eleições”. – Sabia que ele está sendo alvo de investigações sobre sua administração passada e sobre sua atuação hoje em dia? – Mônica lhe explicava, de olhos brilhantes. Esse homem é um mentiroso, e está sob suspeita de sonegação, remessa ilegal de dinheiro, enfim, a sujeira de hábito entre essa gente. Uma boa hora pra reforçar as acusações. Malafate resolveu me ajudar porque foi testemunha do que Munhoz fez comigo. Você é um iluminado, Pôncio, um jornalista de prestígio. Não vai perder essa chance de marcar pontos em seu currículo e prestar um serviço à sociedade, ajudando a desmascarar mais esse bandido que se esconde atrás do mandato dado pelo povo.


Um dos pontos de apoio de Líria durante aquele tempo foram os afazeres do dia-a-dia, a cama por fazer, a louça por lavar, as compras do mercado – essas tarefas que nos salvam de pensar todo o tempo na morte ou no que deu errado em nossa vida. Havia ainda as tarefas do RH, que às vezes a faziam esquecer um pouco seus problemas; gente aflita, colegas no sufoco, licenças, férias, gratificações ou aumentos, anotações que lhe davam também alguma alegria, contagiada por antecipação pela ajuda ou alívio que representavam para seus destinatários.
Verdade que nada disso durava muito, porque logo o conhecido desconforto se antecipava às lembranças. Ou o cheiro delas, um odor peculiar que aprendeu a identificar logo que se separou de Laio, mais precisamente quando se decidiram pelo divórcio e ela voltou para casa lançando mão de todo seu auto-controle para não chorar em público. Um cheiro estranho, mistura de mato queimado com incenso, que lhe invadia as narinas de vez em quando sem mais aviso, em qualquer tempo ou lugar. A princípio imaginou que alguma coisa em seu apartamento cheirasse assim, ou que talvez viesse das vizinhanças. Logo no entanto aprendeu a reconhecer o cheiro de divórcio, como o chamou, porque se manifestava no carro, no trabalho, no supermercado ou na rua. Nada mais apropriado, pensava, com sarcasmo e amargura, divórcio deve cheirar mesmo a rescaldo de incêndio.
Tinha pensado em procurar um serviço comunitário, e preferia reeditar a experiência de alguns anos, quando dera aulas de alfabetização para adultos no salão comunitário de alguma paróquia. Foi impossível, porque os horários destinados a isso pareciam planejados propositadamente fora de seu tempo disponível. Procurou um orfanato do estado para saber como poderia ajudar aquelas crianças, todas menores de seis anos, mas fora informada de que só uma contribuição em dinheiro seria bem-vinda, porque o corpo de empregados encarregados do cuidado dos menores estava completo. Ainda propôs vir nas tardes de sábado para ler histórias e brincar com eles, mas a atendente respondeu a sua insistência com uma cara gelada e um sinto muito que desanimaria a própria madre Teresa de Calcutá.
Quando Laio ligou, logo de manhã, por pouco não a encontrou em casa. Há muito não ouvia sua voz. O cheiro de divórcio invadiu seu nariz com tanta intensidade que a deixou meio tonta. Queria dizer não a tudo que ele propusesse, mas acabou combinando encontrar com ele à noite no bar do outro quarteirão. Estava contrariada, embaraçada, irritada e excitada, do que sentia vergonha, mas também lhe dava alguma alegria no meio daquela confusão. Várias vezes pensou nele, e até a foto da carteira de trabalho de um colega lhe deu a ilusão instantânea de ser a foto de Laio.
Não tinham faltado paqueras e propostas durante aquele ano. Tinha chegado a sair com um colega, conhecido antigo dos tempos de solteira, que havia reencontrado na companhia. Jantaram e conversaram durante horas, mas quando ele deu a entender que gostaria de subir com ela ao apartamento, Líria riu na cara dele e se despediu com uma brincadeira fraterna e quase infantil. Em seu grupo de amigos e amigas no trabalho, quem conhecia bem sua história desde antes da separação era Ana Rosa. Havia também o Marlon, um cara boa pinta que virava a cabeça de muitas mulheres mas nunca ficava com nenhuma, o que dava o que falar e gerava boatos desencontrados entre os colegas. Líria deixara que ele se aproximasse e gostava de seu carinho discreto, expresso em cavalheirismo e numa atenção confortável que lhe parecia muito doce nos momentos de crise. Estava pouco se lixando para o que dissessem dele ou o que pensassem da amizade dos dois. Bastava que ela e ele soubessem do que se tratava. Devia a Ana Rosa e a Marlon os poucos momentos de alegria e paz, a esperança tímida que chegara a viver durante aquele ano.
Não esquecera Larissa, sua amiga de tantos anos que afinal tinha se condoído dela, mas Larissa estava ligada àquele homem odioso, e por mais que tentasse separar as duas imagens ele prevalecia sempre e projetava um pouco de sombra na mulher. Larissa não sabia de nada ainda, mas vivia com ele, dormia com ele, era mãe de seus filhos, e isso a afetava tanto que Líria acabou percebendo que era impossível continuar gostando dela como antes.
A essas alturas, no entanto, estranhando que Pôncio não tocasse nunca no divórcio dos dois, que tantas vezes tinha qualificado como quase-irmãos, Larissa resolvera questionar a atitude do marido. Ele tentou sair pela tangente – Meu Deus, filha, por que ficar cavucando essa história triste – e mudara de assunto. – Não sei, Pôncio, às vezes penso que você tem mais a ver com isso do que parece.
Depois da conversa com Laio e sentindo-se mais culpado que nunca, o marido afinal tomou a iniciativa e contou a ela tudo que havia acontecido. Larissa não soube o que dizer a princípio. Estava desapontada, nunca teria esperado isso dele. Pôncio também estava mal consigo mesmo, dava bem para perceber. O casamento deles entrara numa fase difícil; estavam juntos mas viviam vidas separadas, e Pôncio praticamente não lhe falava senão o estritamente necessário. Tudo isso a impelia para um acerto de contas, e a oportunidade não podia ser melhor. – Então você resolveu jogar a Líria no fogo por amizade a seu amigo? Bonita amizade, que precisa eliminar alguém para sobreviver. – Ora, minha filha, – não sou sua filha, Larissa cortou o que ele ia dizer. O tom com que falava não deixava dúvidas: tinham um problema em andamento. Pensou rapidamente no trabalho do dia, nas dificuldades que teria que enfrentar, e fez menção de sair, mas a mulher o segurou pela manga. – Quero saber de tudo, Pôncio. Não gostei do que você fez. Tenho o direito de saber, não quero mais esse papel de mulherzinha resignada. Por favor, tenha a decência de me contar. Ainda somos leais um ao outro, ou não?
A sugestão de procurar Líria para se desculpar já atravessara a vontade do jornalista algumas vezes, e a conversa com a mulher o encorajou. – A única coisa que me impede é que não tenho certeza de estar errado, ele disse afinal. – Bobagem, ela respondeu. Se não tem certeza, então ela é inocente para todos os efeitos. E além disso já pagou por qualquer erro que tenha cometido. A não ser que você queira muito ver a Líria como culpada, e temos que examinar essa hipótese com cuidado. – Por quê? – ele perguntou, sem entender. – Porque você talvez quisesse dispor da liberdade dela. Pôncio considerou a mulher por uns segundos sem saber o que dizer. – Você está insinuando... – Estou, ela confirmou. Pode ser que você tenha resistido a reconhecer isso, porque afinal é um homem de princípios. Além de tudo sua vida ia ficar um bocado complicada, e pelo jeito Líria nunca esteve disposta a embarcar nessa sua trama, se é que ela existe. Mas é bem possível que haja uma intenção tortuosa te levando a cometer tamanha besteira.
Algumas vezes antes, Larissa lhe fizera um pouco de medo, Pôncio não sabia precisar por quê. Naquele dia em especial, despediu-se dela tomado daquela espécie de temor que se vota às pessoas dotadas de algum poder extranatural. Não demonstraria isso à mulher, é claro. Saiu de cabeça erguida, resmungando até logo com a cara de durão com que se escondia dos olhos dela nesses momentos.

Uma história incompleta cap.6

6

O estádio transbordava de gente. Uma gente irrequieta, a maioria muito jovem, entre eles numerosos estudantes de uniforme. Alguns tinham vindo direto da escola, em muitos casos até cabulado as aulas; na ânsia de conseguir os melhores lugares para ver de perto e interagir com seus ídolos, tinham chegado horas antes do show. Uma vista geral das arquibancadas mostrava um auditório fervilhante, colorido e ruidoso, onde aqui e ali espocavam gritos, grupos que se movimentavam como se dançassem, agitando corpos e braços, bandeiras, as flâmulas trazidas de casa ou compradas de camelôs e cambistas, fotos de artistas para serem autografadas. Por sobre o espaço aberto, voavam ultraleves com faixas flutuantes. De alguns pontos chegavam sons de altofalantes com trechos de sucessos que agitavam ainda mais a garotada, num coro meio desencontrado que percorria o círculo de cabeças e ensandecia quem não pretendesse participar da zoada geral. Empurrando-se e se ajeitando como era possível, a plateia assustava um pouco os mais pacatos e os que chegavam em cima da hora e pretendiam conseguir um lugar.
Na rua havia discussões e gritos ao longo das filas, principalmente nos portões de entrada, onde se acotovelava uma multidão cada vez mais numerosa. Os seguranças apelavam para a agressão contra os eternos penetras, duas ou três brigas deixaram narizes machucados e os vendedores de suvenires e camisetas se misturavam aos cambistas ou se alinhavam no meio-fio, exibindo seus artigos – pulseiras com fotos, medalhões, enfeites para usar durante o espetáculo, óculos com desenhos engraçados e óculos escuros imitando os rayban de algumas celebridades. Havia instrumentos rudimentares, bongôs, guitarras de plástico e máscaras imitando a maquiagem dos rapazes de um dos conjuntos. Havia estalinhos, fogos para soltar durante o show que os seguranças, suados e irritados, se esforçavam para impedir que entrassem sem muito sucesso. Purpurina para os cabelos, colares piscantes e serpentinas se misturavam a bonés, quepes e chapéus de caubói. Havia até saias rodadas ou cheias de franjas como as de algumas roqueiras enluaradas.
Enquanto isso, vendedores de água, mate e cerveja se equilibram nas arquibancadas com suas caixas de isopor e aqui e ali surgem cachorros quentes, pipocas, balas e chicletes, salgadinhos em cestas, que desde os corredores de entrada eram oferecidos junto com sanduíches, dizendo as más línguas que nessas cestas e carrocinhas se escondiam cigarros e pós proibidos. A julgar pelo comportamento de alguns membros da plateia, talvez isso fosse verdade. Havia além disso alguns casais em pleno exercício, escondidos entre as colunas e até no meio do povo das gerais.
O primeiro capítulo da reportagem saiu na segunda-feira, com chamada na primeira página do primeiro caderno e três páginas inteiras, num caderno especial anexo ao noticiário policial. Pôncio e seus ajudantes – uma equipe de três focas, um fotógrafo e um jornalista, o Maia, cuja carreira seguia no anonimato há alguns meses – conseguiram fotos da época, que foi preciso retocar, e insertaram pequenas crônicas e relatos sobre a vida dos astros desaparecidos no desabamento. Acreditavam que a motivação maior para que lessem seu trabalho viria desses relatos. Muita gente guardava a recordação do acontecido e lamentava a perda daqueles artistas. Gente de meia-idade, gente que tinha perdido parentes ou amigos no desastre; pais e mães de família, profissionais, trabalhadores ou indivíduos no desvio, mas com a memória bem clara dos fatos de dez anos passados – foi deles que a equipe se valeu para complementar a reportagem, acrescentando depoimentos às lembranças e aos parcos arquivos de que dispunham.
Mônica Lessa ligou para ele naquela tarde, voz murcha e elogios econômicos. – Conseguiu o que lhe pedi? – quis saber Pôncio, percebendo no tom de sua voz um preâmbulo de reclamação. Mônica porém foi adiante. Não apenas reclamou como, diplomaticamente embora, acusou Pôncio de distorcer os fatos. – Você dispunha de dados além do que foi dito, ela rabujou. Sabia o que havia por trás do acidente. Ele argumentou com a falta de documentos comprobatórios contra o prefeito, a impossibilidade de acusar alguém sem provas, o processo que teria que enfrentar se acusasse assim um senador da república. – Hum, ela se limitou a dizer. Vou ver o que consigo – e desligou sem maiores formalidades.
Líria não se conteve e ligou para Larissa. Queria ter a exata noção de se, e como, a conversa dos dois teria repercutido, mas a amiga parecia continuar alheia ao problema e ao desentendimento. Almoçaram juntas naquele dia, e de fato não notou nada de diferente na outra. A não ser aquele olhar que às vezes deslizava e parecia fixar um ponto fora do foco em questão – elas duas e a conversa do momento – não notou nada diferente em Larissa. – O estádio caiu num momento de glória, Líria disse de repente. Igualzinho ao meu casamento. Quem diria, uma construção daquelas. Teve a impressão de que Larissa ficou embaraçada, mas foi só um instante. Logo fez um carinho em sua mão e chamou o garçom pedindo a conta.


Pôncio abriu os olhos e fixou o teto por alguns minutos. Dormira mal, tivera dois sonhos estranhos de que felizmente já não se lembrava em detalhes, mas que o haviam incomodado muito. Olhou o relógio e pulou da cama num susto. Estava meia hora atrasado para o encontro com Mônica Lessa, que lhe prometera uma prova decisiva para aquela manhã, no café ao lado de seu escritório. Procurou o celular para avisá-la do atraso e passou rapidamente no banheiro. Seu rosto no espelho lhe pareceu envelhecido, cansado, mas não havia tempo para maiores frescuras além da barba feita às pressas e da roupa, que felizmente já estava à mão no cabide do closet. Mal falou com Larissa, que chegava do mercado e abria uma embalagem de queijo na bancada da copa. – Cuidado pra não se estabacar por aí, ela disse, meio rindo meio solene – Larissa, a rainha da pose, ele pensou, já no elevador que ela deixara parado no sexto andar. Desceu experimentando um sentimento difícil de definir, porque misturava cansaço e uma espécie de ternura que o surpreendeu um pouco.
Chegou ao café e não viu sua rancorosa testemunha. – Melhor assim, ruminou, sentando-se e chamando Célio, o pequeno garçom que o atendia sempre. Sentia fome e ao mesmo tempo um pouco de náusea. Lembrou que Mônica podia ter desistido de esperá-lo, mas nesse instante viu-a refletida no espelho ao fundo do balcão e relaxou. Célio já vinha em sua direção, a bandeja suspensa como sempre fazia, por medo de esbarrar em alguém. Puro hábito, porque o café estava quase vazio. Sorriu para o baixinho – e aí, como vai o dia? – e o outro sorriu também, com seu jeito meio tímido meio malandro – vai como sempre, doutor. Mônica chegou a sua mesa e pediu licença, o que dava a entender ainda algum ressentimento, mas Pôncio ignorou sua cara séria e sorriu para ela. – Senta, Mônica, por favor. Quer um café? O pãozinho daqui é uma delícia, posso pedir pra você também? Ela sentou a sua frente sem rir, mas com uma expressão mais desanuviada. Não disse sim nem não, de modo que ele passou a se ocupar do tal pãozinho e seus acompanhamentos.
Enquanto ele comia, a moça abria a bolsa – uma bolsa preta, enorme – e tirava papéis e objetos que ia pousando sobre a mesa de madeira. Pôncio evitava prestar atenção nela. Concentrava-se com devoção no café com leite e no pão dourado e cheiroso que tinha a sua frente. Descobriu que a leve náusea que sentira antes devia ser um protesto do estômago vazio. As coisas que lhe davam prazer recebiam dele uma espécie de embevecimento, quase uma unção, e seu rosto ficava doce e como que iluminado por dentro. Parece uma criança comendo, Mônica pensou, e por um instante sentiu uma enorme atração por aquele sujeito que a irritara tanto dois dias antes. Terminou de arrumar as coisas sobre a mesa e esperou, olhando em volta, um pouco embaraçada com o impulso do momento. – Conseguiu novos depoimentos? – perguntou pouco depois, como se procurasse um jeito aceitável de abordar o jornalista. Ele quase terminara a refeição e balançou a cabeça afirmativamente. – Achei um cara disposto a falar sobre detalhes que ele jura que só ele conhece, embora a essa altura eu não acredite muito que possa descobrir grandes novidades. – Sabe o nome dele? – quis saber Mônica, muito interessada. – Marcondes, Marcolo, sei lá, algo assim. Mas vamos lá, me mostre o que conseguiu, disse ele, limpando a boca e as mãos no guardanapo de papel.
Naquela tarde, Laio ficara de encontrar-se com ele no escritório, onde poderiam conversar com mais calma. Pôncio queria falar de Líria, da visita e das intenções belicosas que ela havia manifestado. Mas havia mais que isso. Precisava trocar ideias com o amigo sobre o que estava sentindo e que passara a incomodá-lo a ponto de perturbar seu sono. Ninguém melhor que Laio para ajudá-lo a trabalhar aquele sentimento que era como um corpo estranho. Afinal, tudo começara por causa dele e da amizade fraterna que os dois partilhavam havia tanto tempo. Por essa amizade havia quebrado um de seus princípios mais constantes – não se meter na vida alheia. A revolta que a visão de Líria com outro cara lhe havia causado o impelira a se comportar como um xereta. Não sentira arrependimento algum até a semana anterior, quando ela o havia procurado, disposta a limpar seu nome, segundo lhe dissera, o dedo em seu nariz. Impossível que não estivesse sendo sincera. Havia muita indignação, muita revolta em sua voz e na atitude com que o enfrentara. – Ela me disse que ia procurar testemunhas contra mim. Não sei até que ponto...
Laio se levantou e se aproximou dele, recostando-se à bancada. – Cara, disse, muito sério, acho melhor não mexer mais com isso. Não acredito que a Líria vá mover uma ação contra você. – Ah, você não viu os olhos dela, não viu a pose com que me anunciou a decisão. Mas o que me incomoda mais nem é propriamente a chateação que isso pode me trazer. O que me preocupa agora é que, pela primeira vez em um ano, estou em dúvida sobre o que vi. Ela não pode ser assim tão cara de pau, se é mesmo a pessoa que eu conheci e que estimava tanto. Estavam dentro do carro, e pode ter acontecido que eu tenha visto uma mulher muito parecida com ela, que afinal não é um tipo tão raro. Às vezes começo a pensar que minha revolta me fez ver alguma coisa que talvez não seja verdadeira. E se eu cometi uma injustiça contra ela, se atrapalhei a vida de vocês sem motivo? Laio voltou para a cadeira em frente ao amigo e ficou olhando para ele. – Você é um cara de muita coragem, não? Como pode vir com essa conversa agora? Não acha que seria mais apropriado calar-se para sempre, como se sugere nas cerimônias de casamento? Pôncio se sentiu atravessado pelo olhar do outro e baixou a cabeça. – Talvez, disse Laio pausadamente, talvez você esteja cometendo a segunda maior bobagem de sua vida, se a primeira foi esse erro de pessoa. Nesse caso, cara, eu me mudaria pra Namíbia só pra não ter que nos encarar de novo. Pense nisso, Pôncio – e levantando-se saiu da sala.


segunda-feira

Uma história incompleta cap.5



5

O pessoal das igrejas tinha atribuído o desastre a um castigo divino, por causa dos excessos e da imoralidade de algumas pessoas no meio do público. Houve um excedente de feridos nos hospitais, que não davam conta do recado, e gente esperando em macas nos corredores e do lado de fora, nas calçadas. O desabamento foi o assunto principal dos jornais e dos noticiários de tv e rádio durante dois ou três meses. – Depois, como tudo que acontece nesta terra, a coisa toda foi caindo no esquecimento, e até hoje a parte mais consciente da sociedade em todo o país. Outros países, que na época foram solidários e prestaram ajuda às vítimas e às famílias, estão esperando uma explicação ao menos plausível, que reabilite nosso governo e os homens públicos. Podia ao menos haver a preocupação de tentar provar que não somos um bando de aborígines irresponsáveis, mas que nada.
Líria ouvia a digressão comprida de Pôncio, que se explicava menos como uma justificativa para o trabalho que desenvolvia no momento do que como um jeito respeitável de fugir do assunto principal. O encontro tinha sido um pouco menos cordial que o dos dois amigos, agora mais amigos que antes. Nada porém que desse a entender a hostilidade e o sentimento de ódio que Líria experimentara no começo da crise entre ela e o marido. Talvez isso se explicasse pela atitude de Pôncio, que fora polido, atencioso, e até ensaiara um gesto de certo carinho, dando-lhe um gentil tapinha nas costas que lembrava os velhos tempos.
Ela ouvia atenta, mas pensava em outras coisas – que ele continuava com a mesma cara de garotão grisalho, que era difícil acreditar que um dia lhe dissera coisas como aquelas. – Pôncio, ela disse afinal, me explique o que foi que deu em você quando resolveu me acusar daquele jeito de estar traindo meu marido. Ele sentiu que o terreno neutro lhe fugia dos pés. Pior, sentiu que estava sendo jogado de cara no chão sujo que um dia havia experimentado, quando a viu na companhia daquele sujeito saindo de um motel num carro que não era o dela. Mas se ela o arrastava de novo para esse chão, era desse ponto de vista que devia encará-la. Recolheu o vago sorriso de antes e olhou nos olhos da antiga amiga-quase-irmã, como a tinha chamado uma vez. – Você sabe o motivo melhor que eu, Líria. Esperou a resposta dela, que se limitou a abanar a cabeça em negativa e o encarou sem piscar. – Não sabe? – Se soubesse não estaria aqui, meu Deus do céu. Nunca entendi nada do que você fez. A princípio pensei que estava interessado em nos separar para ficar com Laio – ela disse, e Pôncio franziu o rosto numa expressão de nojo. Depois achei que talvez a coisa fosse comigo. Mas nada disso aconteceu, ao menos que eu saiba. Então, o que foi?
Pôncio teve um breve momento de hesitação. Depois se levantou, porque percebia que o antigo sentimento de rejeição ameaçava voltar. Era muita chinfra, como se dizia em seus tempos de estudante. Muito cinismo. Então a coitadinha não sabia. O que podia dizer a ela, senão alguma coisa que a ferisse, que a fizesse cair daquela pose de mulher séria?
— Cheguei a ter muita raiva de você, ela continuou, sem se alterar. Agora só queria que você me explicasse. Acho que muita coisa ficou por ser esclarecida.
Ocorreu ao jornalista que ainda não havia escrito uma linha de seu trabalho naquele dia. Começava a se impacientar, porque seus prazos estavam chegando ao fim, a primeira fase da série começaria na segunda-feira seguinte, e Líria o fazia perder aquele tempo oco, sem sentido, mentindo daquele jeito deslavado. Exatamente como antes.
Ela no entanto esperava uma resposta, sentada a sua frente sem o menor indício de querer se despedir ou mudar de assunto. Pôncio se moveu na cadeira, sentindo o desconforto de não saber que atitude tomar. Já não sentia a antiga aversão incontrolável, nem pretendia voltar atrás. Mas o olhar límpido com que ela o fixava era desconcertante. – Bom, começou, tentando ser o mais suave possível, é que os fatos... – Que fatos? – Líria, Líria, por favor, não me faça voltar no tempo, porque isso é uma das coisas que detesto. O que está feito... – Não é tão fácil. Você se deu conta do que aconteceu comigo, com Laio? Percebeu que a culpa foi toda sua?
Agora tinha sido demais. Essa mulher não sabe o que diz, ninguém pode ser assim tão falso. – Tudo tem que ter um limite, ele se pegou dizendo, e ela esperou. Muito bem, ele disse com uma tranquilidade que o surpreendeu, acontece que Laio é um irmão para mim, e eu só fiz o que gostaria que meu irmão tivesse feito: abri os olhos dele, contei o que tinha visto. Foi só isso. – E o que foi que você viu? Olhou-a com atenção e uma calma que não sabia de onde vinha. – Ponha sua memória pra funcionar, Líria. Onde foi que vi vocês, você e aquele seu colega de trabalho, lembra? Saindo daquele motelzinho de terceira, às cinco da tarde de uma quarta-feira de sol? Líria arregalou os olhos. – Meudeusdocéu, o que é isso? Dentro de um carro, segundo você mesmo disse, como pôde me reconhecer com tanta certeza? Você sabe que não era eu, criatura. Eu nunca fiz isso, nunca trairia um homem como o Laio. Ele suspirou e se distendeu em sua cadeira de braços. – Ok, Líria. Não sou dado a alucinações, tenho uma vista ótima e reconheci aquele seu vestido estampado. Agora, se você me dá licença... Ela deu a volta à mesa e parou a seu lado. – Se você me reconheceu só pelo vestido, então a coisa é mais grava do que pensei. Estou processando você por falso testemunho e danos morais. Quero me reabilitar aos olhos de Laio e das pessoas que nos conhecem, dos amigos, dos colegas de trabalho. Me aguarde, Pôncio. Ele se ergueu e foi abrir a porta. – Como queira, minha cara, e fez uma reverência que Líria não chegou a ver. Voltou à mesa com a sensação desagradável de alguma culpa indefinida. O trabalho rendeu muito pouco no resto daquele dia.
O dia seguinte correu inexpressivo e sem novidades. Enquanto esperava um telefonema do jornal, ele se pôs a arrumar a escrivaninha em desordem. Lá no fundo da última gaveta, encontrou o envelope com a letra de Líria. O carimbo do correio estava datado de outubro do ano anterior. Abriu e viu a carta, já quase esquecida, em que ela o acusava de ter destruído sua vida e ter transformado a vida dos dois – ela e Laio – em um inferno de desconfianças e acusações sem razão. Comparava-o a uma ave de rapina que mata para se alimentar de carniça. Acusava-o de inveja, deslealdade e alta traição. Encerrava dizendo que não queria vê-lo morto, mas acabado, roído de remorsos e sem ninguém na vida. Havia ainda uma ameaça velada de contar tudo a Larissa, o que não acontecera. – Talvez ela seja uma daquelas galinhas que cacareja mas não põe ovos, disse entredentes.
Depois ligou para Mônica Lessa e deixou um recado; precisava muito falar com ela. Acabou a arrumação das gavetas e recolocou a carta de Líria exatamente no mesmo lugar. Pouco depois falava com Mônica, pedindo-lhe que conseguisse um certo documento, indispensável para comprovar o que ela lhe havia dito sobre Lauro Munhoz. O telefonema do jornal demorava, e ele resolveu ir até a redação.