segunda-feira

A porta


 Foto sem menção de autor.


O telefone parece um bicho cochilando em cima do sofá. Disco como quem não quer nada e espero o resultado. Pode ser que não responda, que não ligue, que esteja ocupado. Ou pode ser que outra pessoa atenda, mas quem? Será que Norinha já tem outro? Também pode ser que ela atenda, mas por enquanto melhor seria não pensar em nada, encostar aqui no fundo do vazio e esperar. Parece que perdi. Minha mão suando frio, que é isso? Só pode ser fome.
Esticou o pé o atingiu o telefone. Ergueu-se com uma praga e pôs o aparelho no chão. Três noites de insônia, teias nos olhos, a cabeça oca. Há dois dias e meio que cada gesto, cada ato é uma violência, um incômodo, uma impostura que o obriga a pôr seu primeiro plano em segundo e o deixa de mau humor. Acordou noite fechada, custou a lembrar o que estava acontecendo. O corpo todo em estado de dor. Do fundo da memória foi chegando uma confusão, coisas destacadas e logo misturadas, e no meio de tudo uma dúvida: a porta ficou aberta?
O telefone tocou. Taquicardia. A voz da secretária no meio de um torvelinho, a cabeça explodindo em um ofuscamento como se estourassem flashes a sua frente. Sobressalto, pressa, pulo da cama: tinha uma reunião daí a quinze minutos. O ensaio, onde estaria o ensaio? A voz da secretária fazia perguntas – sim, estou em casa, se não estivesse não estaria falando com você, porra.
Entrou no banheiro apressado e ouviu um ruído na entrada. Esticou-se de dentro do boxe para entreabrir a porta e a porta resistiu, havia alguém passando atrás. Saiu agarrado na toalha, o coração aos pulos.
— Norinha?
— Você dormiu de porta aberta, sabia? Escancarada. Levei até um susto, pensei em assalto. Mas era só lerdeza tua mesmo, você também dorme de boca aberta – ela riu e virou a cara, se esgueirando para chegar até o armário sem roçar nele.
Fez uma tentativa de falar com ela, mas não conseguiu. Estava hirto, inteiriçado, e começou a gaguejar.
— Não posso demorar, estão me esperando lá embaixo. Acho que meu xale branco ficou aqui.
— Viu, se você deixou alguma coisa é porque estava pensando em voltar – disse e se arrependeu na mesma hora.
Nem resposta. Nem um olhar. Voltou ao banheiro e deu com a própria cara no espelho. Escorou a porta com a mão e mordeu o braço cabeludo até doer.

6 comentários:

mfc disse...

Sempre imaginamos o que queremos que aconteça e nunca o real!

césar disse...

Gosto sempre do que você escreve.
Beijo.

MIRZE disse...

Bárbaro!

A porta tem uma representação muito forte. Aberta, fechada, ou entre-aberta.

Texto belíssimo!

Como sempre viajo neles

Beijos

Mirze

dade amorim disse...

É mesmo, mfc, nossa fantasia funciona a mil.
Beijo

dade amorim disse...

Muchas gracias, Cesito.
Abração.

dade amorim disse...

Mirze, você percebe sempre o essencial.

Beijo grande.