quarta-feira

Medo e castigo



Tendemos a atribuir a Deus tudo que nos transcende, que pode nos engolir. Não sou nietzscheana, nem marxista e nem mesmo freudiana ortodoxa. Acredito em fenômenos naturais, sim, é claro. Eles estão aí pra ninguém poder duvidar que existam e possam nos embalar ou nos destruir, como acontece com um lindo pôr de sol ou uma tsunami.
Também não creio que se possa confiar cegamente na ciência e seus saberes, sempre um tanto precários e expostos a mudanças. Os próprios cientistas (especialmente os melhores) tratam com ceticismo ou ao menos com reserva qualquer assertiva mais radical sobre o assunto.
Mas então, a quem ou a que atribuir esses fenômenos arrasadores, como os da serra fluminense e, pior ainda, os do Japão? Se fossem castigo para os homens orgulhosos e cheios de si, a gente até entenderia. E os inocentes que se perdem no meio da catástrofe? E as vidas de gente boa, trabalhadora e ordeira, que não causa mal a ninguém nem se julga dona de verdade nenhuma? E as crianças que se apagam no meio disso tudo?
Nunca afirmo nada a esse respeito, porque simplesmente acho que não sabemos de nada. A coisa acontece, é preciso tratar de quem sobrou, minorar as perdas e o desespero dos que não aguentam o peso da desgraça, dar abrigo e comida a quem ficou sem. Acho que os fenômenos naturais acontecem... naturalmente. Acredito que pertencem à mesma ordem que deu origem às diferentes eras da Terra, à mesma ordem que traz o sol e as chuvas, não importando sua intensidade, faz desmoronar encostas pela força da água e fez surgirem o Universo e as galáxias, tantas das quais inacessíveis para nós.
Deus tem alguma coisa a ver com isso? A resposta está além de meu fraco entendimento. Se esse ser sobrenatural pôde mesmo criar tudo que existe, se é ele que decide vida e morte, saúde e doença, não serei eu (nem qualquer semelhante meu) quem vai poder explicar, entender, afirmar ou negar. E no entanto, quanta gente afirma e nega coisas a respeito de Deus. É como se tivessem convivido longamente com ele, conhecessem seu caráter, temperamento e até a eternidade em que se instala. Uns dizem que é infinitamente bom, outros, ao contrário, que é mau e vingativo. Era assim no antigo testamento e em algumas religiões mais primitivas.
Acontecem ainda coisas a que se convenciou chamar milagres: acontecimentos inesperados, que pareceriam impossíveis a nosso entendimento. A maioria deles talvez não passe de embuste, encenação ou ilusionismo. Verdade que não encontramos explicação possível para alguns poucos desses acontecimentos. É claro que há caminhos desconhecidos para nossos olhos, forças com as quais não estamos familiarizados e que nos assustam ou deslumbram por seu alcance. E daí? O que se pode afirmar ou negar com base nelas?
A bondade, o poder ou a sede de justiça que se atribuem a Deus podem bem ser a idealização de sentimentos humanos. O melhor é trabalhar o que existe em nós, desenvolver nossa capacidade de amar, ajudar e compreender, evitar que algum poder nos suba à cabeça e tentar exercer o que nos parece ser a justiça em sua acepção mais plena, a começar pela paz – o que não é nada fácil, mas é possível. E se Deus estiver mesmo nos assistindo, talvez fique contente.

10 comentários:

: disse...

muito bom esse texto, amei, http://amandabaracho.blogspot.com/

Maria Teresa disse...

Dade:
O que é transcendental não nos dá pé, está acima de nossa razão, mas tem uma força que nos atrai de forma inexplicável. Gosto de pensar que Deus não está lá, no azul distante, mas aqui dentro de nós, garantindo-nos essa tarefa de desenvolver nossa capacidade de amar e de buscar a paz, como você lindamente atestou.
Beijos

Jens disse...

Oi Adelaide.
Um dia destes vi um filme que tinha como tema as catástrofes climáticas decorrentes de fendas na camada de ozônio. Diante da tragédia, um dos personagens pergunta:
"Por que Deus fez isto conosco?"
O outro responde:
"Não foi Deus. Fomos nós."
***
O teu texto, com talento e sensibilidade em relação às necessidades espirituais da humanidade, faz um alerta mais sutil: nem toda calamidade é obra do homem, muito são determinações de um Deus rancoroso; algumas têm causas naturais. Simplesmente acontecem, como o sol nasce a cada manhã. Nestes casos, além de cuidar dos sobreviventes, o que podemos fazer, é através das nossas ações minorar as possibilidades de que aconteçam desastres não naturais.
***
Eu já confiei mais na Ciência. Diante da inevitabilidade do fim (por incrível que possa parecer, fico angustiado com a certeza do ocaso do Sol daqui a quintilhões de anos, quando nem mais poeira serei) sempre me consolou a idéia de que os cientistas dariam um jeito de reverter o processo. Hoje tenho dúvidas.
Só nos resta, então, viver da melhor maneira possível, de forma a provocar, como você expressou de maneira feliz, o contentamento de Deus.

Beijo pra você.

***
Eu sou um dos que se considera camarada de Deus. Por isto, por vezes, discordo e discuto como se faz com bons e velhos amigos. Do seu modo singular, Ele responde.

A.S. disse...

Eis um belo texto que deve merecer uma séria reflexão...


Beijo,
AL

Tania regina Contreiras disse...

"...Gosto de pensar que Deus não está lá, no azul distante, mas aqui dentro de nós, garantindo-nos essa tarefa de desenvolver nossa capacidade de amar e de buscar a paz..."

Eu também gosto de pensar no deus que está dentro e que se confunde conosco.
Beijos,
Tânia

dade amorim disse...

Obrigada, Amanda.
Beijo.

dade amorim disse...

É iso, amiga Maria Teresa.

Beijos pra você.

dade amorim disse...

Jens, teus comentários sempre enriquecem o Umbigo.

Beijo

dade amorim disse...

Agradeço o comentário e as boas palavras, Albino.
Beijo.

dade amorim disse...

Tânia, cada vez mais estou convencida de que a ideia de Deus pertence a cada um de nós.

Beijo e obrigada.