quarta-feira

Do diário de meu tio



Passei em frente à casa de Marina. Gosto de ver aquela casa, tem um jeito que chama a gente. O jeito de Marina. Entrei lá duas ou três vezes, joguei botão com o irmão dela que mudou pra Recife e uma vez tomei lanche com eles. Depois de terminar o namoro com Marina às vezes passava lá, na esperança de vê-la na varanda como naquele dia, e contra toda lógica teimo em pensar que isso seria como um sinal de que tudo podia recomeçar.
O cheiro que vinha da casa era uma viagem. Pão doce, cheiro de pão doce fresquinho, novo, dourado. Imaginei a mesa posta, o aipim desmanchando na boca, a manteiga derretida por cima e aquela cobertura morena de canela e açúcar. Pãozinho francês estalando dentro da cesta de vime com o paninho de crochê de bico, branquinho e engomado de leve. A manteigueira, o açucareiro, o bule do café e a leiteira do jogo branco e azul. Os queijos, sempre três ou quatro, o presunto rosado e tenrinho, o requeijão cremoso, fresco, delicioso. O pote do mel de laranjeira, e na tigela branca os sequilhos, biscoitinhos de nata, ao lado do vidro bojudo das torradas e do outro, da geléia. Três ou quatro sucos naturais, um doce de goiaba, outro de leite; o bolo de milho no prato de pé.
Altíssimo astral junto à janela de vidro aberta para o pôr-do-sol e as montanhas azuladas. A mesa coberta pela toalha leve de xadrez miudinho e claro, recendendo a capim-cheiroso; os guardanapos bordados de florinhas e as xícaras azuis.
(Silêncio reverente, suspiro calado, profundo mergulho no âmago do ser.)
As margaridas no canteiro da cerca lá fora e gerânios na jardineira sobre o muro que esconde a área de serviço.
Daria muito por esse momento. Mas não fico muito tempo diante da casa. Tenho medo de que meu desejo se realize e ela apareça na varanda, caso em que eu seria bem capaz de perder a cabeça e voltar com ela, mesmo sabendo o que viria depois. Porque é verdade que seria capaz de dar quase tudo por esse momento. Menos a liberdade.

12 comentários:

Marilia Kubota disse...

Gostei de descobrir este blogue...mais um para minha lista! um beijo

Maria Teresa disse...

Liberdade até de passar diante da casa, morrendo de vontade de vê-la. Liberdade rima como vontade, não é? Adorei os detalhes, as minúcias todas que couberam naquela vontade boa, a que rima com liberdade.
Beijos

Chorik disse...

Que texto olfativo! Eu, se fosse o narrador, abriria mão da liberdade por Marina.

Jens disse...

Oi Adelaide.
Acho que todos temos lembranças de momentos assim inesquecíveis, não importando o que veio depois. É desta matéria que são feitos os sonhos.

Beijo.

Loba disse...

Nunca me canso de dizer: vc é uma excelente contista! Não é fácil ser tão boa qdo o narrador é do sexo oposto.
Beijo, querida
PS. já atualizei o link, viu? ;)

dade amorim disse...

Valeu, Marília, é uma alegria ter uma leitora como você.
Beijo.

dade amorim disse...

É sim, Maria Teresa. E o mais engraçado é que a história é real, ao menos em parte. Há um conceito de liberdade que impede de se fazer o que mais se deseja.
Beijo.

dade amorim disse...

Você está certo, Chorik. Mas vai tentar convencer um cabeça dura como meu querido tio.
Beijo.

dade amorim disse...

Jens, sonhos que podiam perfeitamente ter se realizado.
Beijo.

dade amorim disse...

Valeu, Loba amiga. Andava com saudades suas.
Beijo beijo.

Analuka disse...

Texto delicioso, com um desfecho um tanto surpreendente, hehehe! Fiquei com água na boca e a alma enternecida diante das poéticas descrições, de cheiros e cores do cenário... Como se pintasses uma tela mágica com tuas palavras... E, bem, quanto à liberdade de voar... esta não tem preço, e o melhor é tentar conciliá-la com os prazeres e delicadezas de ter um refúgio encantado... tanto quanto possível! Beijinhos alados azuis.

dade amorim disse...

Coisas da vida, Ana :)
Ele era desses...
Beijo