quarta-feira

Uma história incompleta Final


20

Em sua sala, Cosme ruminava hipóteses fantasiosas em torno de uma história real. Ouvia um concerto para violino e celo, tão baixo que dificilmente alguém além dele seria capaz de ouvir. Um ouvido de tuberculoso, como dizia seu pai. Sorriu de leve, lembrando o velho de quem herdara o nome, e apenas um músculo da face esquerda se movia, quase imperceptível. Seu pai tinha sido um político atuante, de grande prestígio, responsável por uma mudança radical na câmara estadual e por um período brilhante na administração do Amazonas. Infelizmente, essa fase marcada pela lealdade e por uma justiça digna do nome, mas que durara bem pouco. Não lhe faltavam inimigos, gente insatisfeita, que precisava das sombras que ele dissipava com sua retidão; gente que precisava do contrabando, do tráfico de drogas e da prostituição para manter o poder econômico e o prestígio.
Pouco depois do assassinato do velho deputado, sua família precisou fugir às pressas, de madrugada, num barco em que levavam o necessário para a viagem e alguma roupa. Ficaram em Manaus a casa espaçosa construída pelo avô, as cabeças de gado e as criações, os empregados que nem ao menos conseguiram indenizar decentemente. Lembrava daquela noite como de um pesadelo. Tinha deixado pela metade um doutorado em ciências políticas e trazia consigo seus diplomas, um pouco de dinheiro achado no cofre e algumas jóias que acompanhavam a família há três gerações. Quase nada, levando-se em conta que vinham para o Rio de Janeiro sem saber ao certo a quem iriam recorrer. A mãe e a irmã pouco falavam desde a morte do pai, e a angústia delas lhe dava forças para enfrentar a situação.
Na agenda do pai, tinham encontrado dois endereços de conhecidos no Rio. Um deles, antigo colega de universidade, não morava mais no lugar anotado. O segundo era o Castro, filho de outro deputado do estado, que estudara e se formara no Rio. Deviam ao Castro o quarto de hotel em que se abrigaram no início de sua estada na cidade e as primeiras refeições sólidas daqueles dias. Também deviam a ele, embora em outro contexto, o casamento de sua irmã com um amigo do advogado, viúvo havia cinco anos. Castro não os apresentara com segundas intenções, tudo fora obra do acaso, e Cosme gostava de repensar aquela história, que lhe soava um pouco romanesca, além de ter dado uma última alegria a sua mãe, já muito doente.
Pensava na beleza um tanto melancólica daquele encontro entre a cabocla esguia e muito jovem, meio assustada com a cidade desconhecida, e o homem dezoito anos mais velho que ela, de ar um pouco triste e coração generoso, que se dedicara a Maria Rosa como a uma filha. Ele a reconduziu ao curso interrompido pela fuga de Manaus e ajudou a firmar sua carreira de juíza. Independente e desenvolta, a moça era agora dona da própria vida e objeto de uma paixão que deixava o irmão detetive um pouco apreensivo, porque conhecia bem demais a natureza humana e o ciúme do cunhado lhe parecia excessivo. Enfim, o jogo estava feito e cada um seguia seu rumo de um modo que deixaria o pai orgulhoso.


O relógio da sala ainda bate as horas, mas Pascal já não pula de susto a cada badalada: limita-se a levantar as orelhas e olhar com certo enfado aquela coisa que interrompe seus cochilos e o distrai da bolinha que perseguia. Líria está atarefada em sua sala, na empresa onde trabalha, às voltas com alguns casos complicados de férias atrasadas e reivindicações que é preciso analisar com cuidado. Tem pressa. Daqui a uma ou duas horas espera a chegada de Pôncio, que iria passar pela rua da empresa e tinha se oferecido para levar-lhe uns documentos esquecidos em casa pela manhã. Um bom amigo, sempre disposto a ajudar.
Abanou a cabeça, lembrando do mal-entendido do ano passado. Agora podia rir daquela bobagem e da chateação que lhe causara. Na verdade, nem lembrava mais, e por associação pensou na maldade que tinha feito com ele, tentando atrapalhar a reportagem sobre o estádio do Rio Comprido. Seu sorriso se alargou e ela imaginou se algum dia seria capaz de confessar aquilo. Mas que nada, ficava uma coisa pela outra, estavam quites, e agora eram de novo grandes amigos.
O livro de Pôncio tinha sido lançado na semana anterior, numa festa cheia de gente, um sucesso absoluto. Ainda mais que o mandato de Lauro Munhoz tinha sido cassado e ele respondia por seus crimes na justiça comum – uma grande vitória, num país onde os poderosos costumam escapar da punição por seus crimes. A mídia entronizara o jornalista como herói da pátria. Todo mundo queria entrevistá-lo, seu livro encabeçava a lista dos mais vendidos pela segunda semana e Larissa estava grávida. Pôncio não cabia em si de contentamento, e esse estado beatífico o tornava ainda mais amável que de costume.
Chegou à empresa lá pelas quatro e meia, quando Líria e Marlon tomavam o café de praxe na cantina. – Venha tomar um café com a gente, Pôncio, ela disse, levantando-se para beijá-lo e apresentando-o ao colega e seu amigo. Não notou a expressão do outro, mas estranhou que ele não tivesse aceitado o convite e logo que lhe entregou os papéis tivesse se despedido de um modo que lhe pareceu meio brusco. – Vai ver ele está cheio de trabalho, não esquenta, disse Marlon, terminando seu café. Trouxe o que você pediu, não trouxe? Então, mulher, o que você queria mais? Líria deu de ombros e os dois voltaram ao trabalho.
Pôncio no entanto entrou no carro incomodamente contrariado. Tinha reconhecido no colega de Líria o sujeito que afinal causara tanto mal-estar entre eles e quase dera fim ao casamento de Laio. Então era ele, ainda? Passou o resto da tarde perturbado com a ideia de que afinal estava certo. E tanto isso o incomodou que procurou por Cosme, a essa altura já envolvido em outro caso. Precisava ter certeza. Não aguentaria continuar convivendo com os amigos sabendo daquilo, ainda que fosse difícil de acreditar que – queria saber de tudo, fosse qual fosse o resultado. – Não é todo dia que se encontram amigos iguais a eles, explicava ao detetive. Quero saber toda a verdade, aconteça o que acontecer. – E pretende reeditar sua atuação do ano passado? – quis saber Cosme, meio preocupado com o resultado da investigação. Não prefere acreditar que tudo não passa de coincidência? Se ela fosse culpada do que você imagina, não acha que seria meio estúpido ter te apresentado ao cara?
Cosme, como sempre, tinha razão. Mas Pôncio tinha uma cabeça obstinada e, ainda que não pretendesse repetir o que tinha feito antes, queria tirar tudo a limpo. Assim, quinze dias depois ele recebia um relatório completo a respeito do belo rapaz com quem Líria, todos os dias úteis, repartia uma mesa da cantina. Assim ficou sabendo que Marlon dos Santos Macieira Lima frequentava algumas vezes por semana motéis como o Mon Bijoux em companhia de um parceiro – nem sempre o mesmo, mas quase sempre um dos três cujos nomes vinham listados abaixo. Havia ainda, mais raramente, uma parceira eventual, de nome Ana Rosa Araújo Alcino.
Agora Pôncio, que respirara aliviado com a notícia, tinha outro dilema – contar ou não contar à amiga o que tinha descoberto sobre seu amigo. Larissa tentou em vão convencê-lo de que chegava uma fofoca, e que duas talvez Líria não lhe perdoasse, mas era mais forte que ele, e achou um jeito de explicar à amiga quem era aquele sujeito tão simpático com quem ela tomava cafezinho todo dia.
Surpreso, viu Líria rir muito dele, confirmando alegremente que Marlon era gay, sim, assumidíssimo, e também um ótimo rapaz, colega exemplar, um cara leal e um papo maravilhoso. Meio desconcertado, sorriu amarelo e achou melhor encerrar o assunto, mas antes queria saber por que de vez em quando ele preferia a companhia de uma mulher. – Ah, é uma longa história, ela explicou. Ana é apaixonada por ele, acha que pode despertar o príncipe encantado que ele não sabe que é. Não há o que tire isso da cabeça dela. – Mas que bobagem, ele comentou. Essa moça está perdendo tempo, se iludindo atoa. – Pois é, comentou Líria, com um jeitinho coquete. Eu já disse isso a ela, mas – claro, claro, não se pode interferir nessas coisas, ele disse.
Despediram-se calorosamente, e mais tarde ele engrandecia o espírito delicado de Líria, capaz de compreender e manter a amizade com um cara de vida assim complicada. Larissa não disse nada e mudou de assunto.
Em casa, enquanto esperava a chegada do marido escovando de leve o pelo de Pascal, Líria revia a experiência de uma tarde em que decidira aceitar um convite de Marlon, ardendo de curiosidade sobre o que ele chamava surtos hétero. Para se proteger, usara o carro e o nome da amiga solteira – também parceira dele de vez em quando – e criara um laço novo em sua vida, do qual ninguém deveria ficar sabendo. Muito menos um sujeito intrometido como aquele amigo, que no entanto a enternecia com sua dedicação paternal. O que não impedia que, uma ou outra vez,

domingo

Uma história incompleta cap. 19

19

Não houve novidades na segunda nem nos outros dias da semana. Ele sentia os nervos à flor da pele, chegava sempre exausto em casa. Larissa preparava seus pratos prediletos, trazia filmes que às vezes partilhavam com Líria e Laio, massageava os músculos tensos de seus ombros e aparecia de vez em quando no escritório para um café feito na hora ou um lanchinho gostoso. Numa dessas tardes amaram-se no sofá da sala de trabalho, “para exorcizar os fantasmas”, e em casa, nas duas noites em que ele não conseguiu pegar no sono, reeditaram a festa da madrugada do sábado anterior em versão um pouco menos extensa. No sábado seguinte, tinham um convite para jantar em casa do Canhedo na companhia do que passaram a chamar a turma do Pôncio. Para alívio e preocupação dela, Hartmann não apareceu. Temia tê-lo irritado, e que isso pudesse azedar a atuação do comandante quanto a Pôncio. Nunca se sabe como vai reagir um homem nesses casos.
Em compensação, Cosme apareceu no velho Passat branco e parecia contente, a julgar pelo sorriso com que entrou no galpão, bem na hora em que saía do forno um enorme dourado todo enfeitado e a mesa se completava ao som das vozes animadas por cerveja gelada e vinho branco. Aproximou-se de Pôncio e entregou-lhe um relatório em que dava conta de algumas conclusões animadoras: conseguira provas da culpa de Antônio Malafate quanto à morte de Mônica Lessa, o que surpreendeu o jornalista, certo de que essa culpa recairia sobre Lauro Munhoz. Mas não era só isso. Contou-lhe que agora não havia dúvidas, e três testemunhas estavam dispostas a desmascarar de vez o ex-prefeito com provas irrefutáveis de sua responsabilidade no caso do estádio, o que lhe valeria uma acusação de homicídio culposo de centenas de pessoas. Alguns documentos dados como perdidos – evidentemente com a intenção de abafar o caso e de jogar poeira nos olhos dos encarregados – tinham sido guardados por funcionários ressentidos, e agora ressurgiam, na hora em que eram bem oportunos para incriminar Lauro e livrar Pôncio da suspeita de calúnia.
Diante disso, o jantar foi um sucesso absoluto, Cosme foi carregado pelos amigos e o vinho e a cerveja rolaram um pouco além da conta, de modo que os dois casais e os meninos de Larissa e Pôncio aceitaram o convite do Canhedo para dormir em sua casa. Ainda não eram duas horas quando Cosme voltou para casa (nunca bebia nada que tivesse álcool), assim como o Castro e o redator-chefe, praticamente vizinhos do Canhedo. Os quatro entraram nos quartos depois das três horas, ainda cheios de alegria, e mesmo cansados continuaram a conversa. Os meninos tinham caído no sono pouco mais de meia-noite, de modo que havia a chance de um joguinho rápido e algumas piadas para aproveitar a distensão do momento.
Alguém pensou em uma nova experiência, mas não chegou a pôr em palavras a sugestão. Haveria na certa sérias restrições, e talvez até a amizade dos quatro sofresse com isso. Além de tudo, o cansaço e o que restava dos vapores em suas cabeças não deixavam muita energia para outra alternativa que não fosse dormir. Mas a ideia ainda vivia; em sonho, Laio os olhava de fora e via os quatro, incluindo ele mesmo, envolvidos em abraços e carícias como uma ninhada de gatinhos. No meio do suingue, Pascal aproveitava o calor dos corpos e lambia os bigodes com os olhos azuis brilhando.


A festa de sábado entrou pelo domingo de praia e almoço num restaurante do Leblon. Ninguém mais pensava nos problemas legais, mas Pôncio ainda não estava tranquilo. Nem podia. Era cedo para se julgar livre de encrencas. Tinha razão: Lauro Munhoz procurou por ele na terça, queria conversar e se recusava a encontrar com o jornalista em outro lugar que não fosse seu gabinete particular no Rio.
Uma crise de desalento o dominou tão completamente que foi preciso procurar o Castro e o detetive – que não conseguiu encontrar – para ouvir deles os motivos que poderiam funcionar a seu favor nesse encontro. Queria se ver livre daquilo tudo, e preferia partir já com as falas decoradas, como se fosse atuar num palco. – Você tem o direito de levar o advogado a tiracolo, opinou o Castro. – E se ele não aceitar? – Que se dane. Se o interesse do encontro é dele, por que não aceitaria? Já está impondo condições demais, com essa história de exigir que o papo seja em seu escritório. – Acho que o Castro tem razão, disse Loredo, que chegara no início do encontro e fora chamado pelos dois. E pode ir começando a sacudir essa coisa que está te empurrando pra baixo, não há motivo. Que cara é essa, medo do Lauro? – Aliás, você só vai a esse encontro se quiser, acrescentou o advogado. E uns segundos depois, – eu nem aparecia lá.
Pôncio criou alma nova. Rever Lauro, depois daquilo tudo, era um saco. E ainda por cima no lugar escolhido por ele, seu ninho de senador corrupto e arrogante. Ele sim, devia estar deprimido e preocupado. Saiu da redação mais cedo, passou no escritório para pegar o pendrive com os arquivos do livro e da coluna do dia seguinte, e seguiu para casa levando um vinho da adega da esquina e umas flores para Larissa.

quinta-feira

Uma história incompleta cap. 18

18

A atitude do detetive não saía da cabeça de Pôncio, que à noitinha comentava seus motivos possíveis com Loredo e o Castro. – Pode ser que tenha descoberto alguma coisa importante, e esteja economizando palavras para não desperdiçar assunto. É bem a cara dele. – Tomara que sim, augurou o redator-chefe. Começo a achar que esse cara é um detetive sui generis, um profissional muito competente, com certeza, mas dotado da intuição de um sensitivo. A maneira como ele age é fora do normal. Parece que fareja as coisas, tira conclusões no ar, inesperadamente. E ainda não peguei um erro nas conclusões que ele tira.
Castro concordava com o chefe, mas logo a conversa seria interrompida por um telefonema anônimo, rápido e agressivo, em que uma voz de homem dizia, escandindo as sílabas, – podem escrever. Se o puto do Munhoz não for pra cadeia, vocês vão se ver comigo. Castro tinha grampeado os telefones da redação e o do escritório de Pôncio para chamadas de fora. – Vamos achar esse desafeto do senador, disse. Depois ligou para Cosme, que respondeu laconicamente já saber da chamada e de quem provinha. – Para isso é um detetive, comentou Loredo, um pouco decepcionado com a ingenuidade do Castro, ao mesmo tempo em que ruminava sua própria surpresa.
Hartmann e Larissa, que já tinham tomado um café dias antes, conversavam de novo, no mesmo lugar, sobre o imbroglio em que o marido dela se envolvera e as possibilidades de defesa e absolvição, que ele não julgava difícil de conseguir. A postura dela era a de uma esposa preocupada, e a do comandante parecia expressar apenas solidariedade e atenção. Entre as palavras que trocavam, no entanto, havia certa eletricidade que os olhos às vezes confirmavam, sem que nenhum dos dois fizesse um gesto fora do ritual da amizade. Até o momento em que Roberto – assim ele queria ser chamado – deixou escapar, ninguém poderia dizer se intencionalmente ou por um desses lapsos que nos denunciam sem querer, mas morrendo de querer, que os olhos dela lhe pareciam tão cheios de vida que o deixavam meio tonto.
Seguiram-se uns segundos do mais intransponível silêncio, em que ambos pareceram petrificados, e depois Larissa riu um risinho meio constrangido – imagina, como você é gentil, e pegou a bolsa para deixar uma nota sobre a mesa. Ele porém se adiantou e foi até o balcão pagar a conta. Antes de se despedirem, na porta do café, ele beijou sua mão bem de leve, com ar grave. – Eu gostaria que a gente pudesse se ver de novo. Acho que é preciso examinar melhor essa questão que o Canhedo colocou e que ficou um pouco – Larissa porém parecia bem apressada, e desceu os três degraus com um sim de cabeça, sem olhar de novo para ele.
Como se adivinhasse, Pôncio chegou mais cedo e a encontrou diante da bancada da cozinha temperando uma salada para o jantar. Os meninos tinham viajado com a família de um colega de Cinho para um fim de semana na praia.
Larissa remoçara. Parecia mais ágil, a cara meio marota. Estava mais esguia, a cintura dengosa, os seios querendo furar a blusa fina. Tinha o rosto corado, quente, e quando o marido se aproximou para beijá-la como há muito não fazia, tudo escureceu aos olhos dela. Um desejo quase doloroso tomou conta de Pôncio, e ela nem pensou em resistir quando a levou para o quarto, enganchada a seu corpo, e o líquido quente escorreu pelas pernas do dois ainda a caminho da cama. Lembraria mais tarde de ter chorado e suplicado coisas muito loucas, da sensação inexplicável e nova de um prazer de aniquilação, de ter pedido para morrer por suas mãos, e das vezes em que o gozo voltaria a pulsar em cada um de seus órgãos, as cabeças como se estivessem prestes a explodir, pontos luminosos percorrendo os olhos. Houve um momento em que Pôncio teve medo da violência que os dominava como uma força independente injetada no sangue.
Adormeceram quase sem sentir, como se a vida tivesse se esgotado neles. Ficaram assim, encaixados um no outro, até o dia seguinte, que era um sábado. Acordaram depois do meio-dia, e um beijo intenso misturou seus dentes e as línguas, os lábios prestes a se fundir, até que ele deslizou para dentro da mulher, e ternamente se deixou ficar assim, à luz do sol que vinha da janela. – Não quero levantar, ele disse. Não quero sair daqui. Quero te curar das maldades dessa noite, e a abraçava, acariciando sua pele, protetor, beijando as marcas em seu pescoço. – Então fica, ela respondeu, toda entregue, sentindo as asas se agitarem de leve. É tudo que eu mais quero, completou, enquanto o voo batia mais forte e ela gemia baixinho, alagada de prazer. Dormiram de novo até que a tarde já ia alta e sentiram fome. Na bancada da cozinha, uma salada pronta os esperava.
Aproveitaram a ausência dos filhos para ir dançar e entraram pela noite em uma boate da moda, rodeados de jovens, à luz frenética que piscava sobre eles, e tudo lhes parecia uma delícia. De lá saíram para namorar à beira-mar, quase de manhã, e tomaram café em frente à praia. – O melhor café de minha vida, disse Pôncio, e era sincero. – Da minha também, ela respondeu, e ficaram os dois perdidos nos olhos um do outro. – Sabe, fala sério, você não acha muito louco esse nosso caso sem começo nem fim? – Sabe o que eu acho? – ele disse, junto ao ouvido de Larissa. Acho que você encontrou a palavra certa. Nós temos um caso que nem o casamento consegue atrapalhar. Voltaram para casa em estado de graça, ela deitada ao colo dele. – Se um guarda nos pega, você perde a carteira, ela disse, rindo. – Abençoados os guardas que dormem na manhã de domingo, ele respondeu, dirigindo com uma das mãos.
A segunda-feira se anunciava por uma chuva forte que engarrafou o trânsito e atrasou boa parte dos alunos da escola dos meninos. Ao volante, Pôncio ligava para a redação, mas o celular funcionava mal, e ele acabou desistindo. Achou melhor relaxar um pouco. Tinha um dia imprevisível pela frente, não valia a pena perder a cabeça. Ficou olhando a chuva e conversando com os filhos até que a fila de carros e ônibus começasse a se deslocar. O tempo dera uma pequena trégua, mas quando os dois saíam do carro o vento recrudesceu. – Liguem pra casa, se não conseguirem sair na hora, gritou. Não deixem a mãe preocupada. Eles levantaram os polegares, correndo para dentro. Enquanto dava saída ao carro, teve a impressão de que alguma coisa dentro de si estava forçando seu peito, atravessada à respiração.


segunda-feira

Uma história incompleta cap. 17


17

Revendo a papelada e os artigos sobre o desastre do estádio, Cosme se deparou com o nome de Antônio Malafate, autor do primeiro parecer que Mônica havia conseguido sobre a culpabilidade de Munhoz naquela história mal engonçada. – Vou falar com esse cara, declarou, e saiu do escritório de Pôncio sem fazer qualquer ruído, mesmo quando abriu e fechou a porta. Ele anda como uma sombra, pensou o jornalista, sorrindo. Tinha aprendido a estimar aquele caboclo intuitivo, inteligente e discretíssimo, que já considerava um amigo.
Estirou as pernas sob a escrivaninha e jogou a cabeça apoiada nas mãos para trás, um gesto muito peculiar que repetia quando precisava pensar em alguma coisa que exigisse abstração do resto. Na verdade, duas coisas dividiam agora suas preocupações – a ameaça de uma sanção injusta, como se veem tantas nesta terra, e o vago mal-estar que percebia dentro de casa. A primeira questão estava em boas mãos, e só lhe restava esperar que o detetive, o Castro, as testemunhas e os amigos conseguissem as condições para enfrentar com vantagem o poder do dinheiro e do que considerava a podridão moral de seu adversário. A morte de Mônica Lessa, na flor da idade, havia de comover as pessoas e comprometer aquele crápula. Não lhe restava a menor dúvida sobre quem fora o mandante – ou até o próprio assassino.
Quanto à segunda questão, o relacionamento com Larissa tinha de novo mergulhado numa espécie de limbo. Talvez o motivo fosse só a pressão dos últimos meses, aquele turbilhão de acontecimentos em que tinha se envolvido por causa de uma inocente reportagem. Ela bem que tinha tentado reavivar o desejo de antes, e ele lhe era grato por isso. Tinha realmente sido um apoio e uma alegria retomar aquele amor, mas agora o tempo do amor parecia muito distante, as coisas caminhavam para um estado pantanoso, e tudo que conseguia encontrar dentro de si era um tédio que não predizia nada de bom.
Enquanto Cosme se punha em campo para descobrir o paradeiro de Malafate, ia pensando nas chances de seu cliente. Nada de muito promissor lhe chegava quanto às providências já tomadas. As testemunhas estavam sendo instruídas pelo Castro, mas o detetive sentia necessidade de um contato mais intenso com essas pessoas. Tudo lhe parecia ainda meio solto, e não poderia confiar cegamente na disposição de alguém que conhecesse a situação, sabendo da força política e econômica do senador.
Não saberia explicar bem por quê, mas o nome de Antônio Malafate lhe dizia alguma coisa ainda obscura. Precisava descobrir a razão de o antigo colega de Mônica ter se decidido a colaborar com ela contra Lauro Munhoz. Podia ser que se tratasse de um ingênuo ou de um sujeito predisposto contra o ex-prefeito para quem trabalhara. Nesse último caso, devia ser também um indivíduo corajoso ou ligado a algum grupo que lhe desse apoio, o que era mais provável. Munhoz contava com inimigos aos montes, mas sua força política e seu mau caráter mantinham à distância os desafetos. A não ser que – só mesmo cara a cara é que vai ser possível avaliar a situação, pensou, estacionando seu velho Passat a alguns metros da companhia em que Malafate trabalhava. Era uma empresa pequena num edifício novo da Glória, de poucos empregados, prestadora de serviços de tecnologia e informática, segundo o pequeno letreiro no portão.


Larissa apareceu em casa de Líria de surpresa, no momento em que a amiga saía para o trabalho. – Nossa, que foi que houve? Você está com cara de quem viu um fantasma; olhou com atenção para a visita e completou – um fantasma alegre. – Quase isso, a outra respondeu. Podemos almoçar hoje lá naquela cantina perto do teu trabalho? – Claro, vamos sim. Ando até querendo acertar a conversa com você, saber como vai o estresse do Pôncio. – Ah, ele está bem, mesmo dentro dessa situação toda, você sabe. O Pôncio é um cara metido a forte, não entrega o jogo assim. Havia um toque de impaciência na voz da outra, um pouco de ansiedade, mas sua expressão era quase radiosa. Por isso Líria se encaminhou para a cantina certa de que haveria novidades, e nem se surpreendeu quando Larissa, mal tocando no prato, anunciou que estava se sentindo como uma adolescente que vai ao encontro do primeiro namorado.
Depois que a amiga se foi, sem sobremesa nem café, Líria ficou pensando no resultado daquilo. Que maluquete. Uma mulher tão louca pelo marido, os dois filhos adolescentes em casa, e ela inventando álibis para encontrar com um cara que acabara de conhecer, e ainda se dando ao desplante de afirmar que dele podia vir a salvação para Pôncio. A coisa devia ser mesmo muito forte. – Mas você pretende subornar o tal Hartmann pra conseguir apoio da polícia federal? A pergunta era um tanto irônica, porque para Líria aquilo não passava de uma desculpa esfarrapada para ir ao encontro do tal Roberto. Na verdade o verbo que lhe ocorrera nem era subornar, mas não queria dizer nada que pudesse agredir a amiga ou a reprimisse naquele momento.
Imaginou que talvez Larissa tivesse atingido o limite da tolerância em relação à suposta indiferença de Pôncio. Às vezes não depende da gente, as coisas fogem ao controle, e nadando naquela baía de carência, podia ser que a atenção de outro homem – por coincidência tão atraente e interessado nela – fosse um remanso, um consolo, um elemento de reconstituição da auto-estima, quem sabe. De qualquer modo, um jogo arriscado, que tanto pode salvar um casamento como afundá-lo de vez. Suspirou como quem aceita o fato consumado e foi pagar sua conta dupla, ao mesmo preço de sempre, porque Larissa trouxera para a mesa um prato quase vazio.
Pôncio reagiu com surpresa ao fato de chegar ao escritório de Cosme – uma salinha antiga que alugara na Lapa – e encontrá-lo embevecido, ouvindo bem baixinho uma música que, chegando mais perto, identificou como o Adagietto da quinta sinfonia de Mahler. O detetive lhe fez um sinal para que esperasse um pouco. Um minuto depois a música terminava e ele se dirigiu ao outro com a mesma cara de sempre. – Não conhecia esse seu lado amante da música. E que música! Você é mesmo um cara diferente. Cosme abriu aquele sorriso ofuscante que lhe iluminava toda a cara morena e arredondada, a despeito da magreza de seu corpo. – Ah, a música é um refúgio no meio do dia-a-dia. Se a música não existisse, a vida seria ainda mais difícil de viver. – Por que você acha a vida difícil? Pôncio quis saber, com genuína curiosidade. Sempre achei, pela sua cara serena, que você era um cara zen e cheio de paz interior. – Nem sempre a cara diz a verdade, Cosme respondeu, com o olhar um pouco mais pensativo que de costume. Há umas coisas que nem a paz interior ameniza. Pôncio ficou calado, esperando o resto do discurso, que não veio.
— E então, conseguiu falar com o amiguinho da falecida? – indagou, desistindo de interrogá-lo sobre assuntos mais pessoais. O outro balançou a cabeça com uma cara de profunda preocupação. E como não repondesse diretamente à questão, o jornalista quis saber mais. Cosme positivamente não devia estar num bom momento, porque se limitou a levantar os ombros ossudos e continuou calado, oferecendo-lhe um copo dágua apenas através de gestos. Pôncio então desistiu da entrevista e achou melhor voltar para o escritório, onde o esperava uma coluna por escrever e a correspondência do dia, que não poderia ser negligenciada numa hora daquelas. – Te ligo depois, disse, ao que o outro respondeu – vou ligar pra você assim que tiver certeza.

sábado

uma história incompleta cap 16

16

— Que nome esquisito, comentou Líria, que acabava de dar o banho do mês em Pascal e o enrolava na toalha com um capuz de orelhas de gato e bigodes. – Esquisito porém fundamental para o caso do Pôncio, respondeu Laio, que lia o jornal, terminado o café da manhã. – Olha como ele treme, tadinho, dizia ela, ligando o secador no grau mais fraco. Laio olhou distraidamente na direção do gatinho. – Está ficando grande, observou, deixando o jornal de lado e acariciando Pascal. Esse gesto deixava Líria muito enternecida, e ela se pendurou em seu pescoço para beijá-lo. Dentro do cercadinho, o gato sacudiu a cabeça e pulou a grade sem ser percebido. Mas sua dona só iria procurar por ele uns quarenta minutos mais tarde.
O depoimento de Marconolo trouxe uma novidade que surpreendeu todo mundo: Mônica Lessa nunca tinha estado no estádio do Rio Comprido e muito menos assistira ao começo do desastre naquela tarde de dez anos antes. Cosme deu de ombros. – Isso agora não faz nenhuma diferença, comentou, com seu ar um pouco blasé. Ela mentiu só pra poder incriminar o Lauro. Foram amantes durante uns dois anos, aparentemente um dos primeiros casos mais sérios da vida dela, que tinha dezessete anos quando começaram a se encontrar. – Foi uma mentira inútil, observou o Castro, já que ela conhecia o episódio por seu envolvimento com ele. Na certa quis encobrir o caso entre os dois para se proteger.
Marconolo contou também que Mônica só começara a trabalhar na prefeitura já no final da ligação com Lauro, quando atingira a maioridade e seu protetor agitava a campanha para a eleição que iria ganhar. Lauro a deixou de lado por uma vereadora de grande força política, sem a qual dificilmente teria conseguido o posto. Mônica nunca o perdoou. Ultimamente, tinha aceito o assédio dele para se vingar de Pôncio, por quem estava muito interessada e que a evitava. Além da posição, o senador lhe oferecia altas vantagens financeiras, um emprego em seu gabinete e um estilo de vida irrecusável. – Você ainda é muito moça, minha querida, e eu nunca deixei de querer a sua volta – ele tinha dito, após um jantar opulento em sua suite luxuosa. Depois da famosa transa que quase acabara com o casamento de Pôncio e Larissa, ela pretendia entregar a fita ao senador, com quem tinha reatado e de quem ganhara o apartamento no Leblon. Novamente, esperava status e dinheiro pela ligação com Lauro. Mas não contava com a desconfiança dele, que temia ser traído por ela durante os depoimentos. Mônica sabia demais, e punha em risco sua segurança e a impunidade com que ele contava.
Quanto a conseguir testemunhas em favor de Pôncio, Marconolo se propunha a indicar dois ou três nomes de antigos colegas de trabalho e, embora titubeante e suado, não teve outro jeito senão confirmar que aceitava depor contra Lauro. Pouco depois de sair da sala do Castro, ele caía com uma vertigem. Cosme sugerira que denunciasse Lauro Munhoz como mandante do assassinato de Mônica Lessa, em troca de proteção da justiça. Positivamente demais para ele.
Larissa atendeu o telefone na tarde do domingo e não conseguiu responder logo. Uma voz familiar, que ela logo identificou como senda a de Hartmann, lhe propunha um encontro de amigos, num bar do centro, e logo depois se identificava, – desculpe, Larissa, é que ando com a cabeça meio fora de órbita, ele disse, rindo. – Ah, sim, comandante. – Como assim, comandante? Por favor, me chame de Roberto. Amigos não usam esse tratamento tão distante. Larissa sentiu o coração se agitar e não soube exatamente como responder. Precisou de alguns segundos para tomar a decisão, e disse que sim, quer iria ao bar do centro. Não estava segura do que iria fazer, mas não via como dizer não sem contar com um bom álibi. Primeiro era preciso ouvir o comandante, Roberto, um homem tão fino, tão encantador, que a impressionara tanto, embora – bem, era preciso dar tempo ao tempo. Pensou em Pôncio e, como uma sensitiva, não se surpreendia pelo comandante ter aparecido exatamente naquele momento. Não fosse Hartmann, quase certamente apareceria algum outro homem capaz de lhe despertar tais sensações.
Falaram-se como velhos amigos, irmãos, e Pôncio declarou que estava cansado demais e queria dormir muito, até umas onze horas do dia seguinte. – Claro, meu bem, você está estressado, precisa descansar. Estava resolvido: aquela entrevista com Hartmann poderia bem ser útil para garantir a defesa de seu marido. Não tinha a menor ideia de como isso aconteceria, mas se acreditasse firmemente, quem sabe, estaria decidindo a sorte deles dois.

quinta-feira

Uma história incompleta cap 15

15

Loredo preparara uma reunião informal com o Castro e dois juízes amigos do Canhedo, em volta de uma galinha ao molho pardo que os deixaria predispostos a fornecer todos os esclarecimentos necessários e ainda solidificava a amizade recente, selada a cerveja gelada. Dias depois eles se encontrariam de novo, dessa vez na presença do comandante Hartmann, de Pôncio, incluído agora na roda dos ilustres, e do estrogonofe de lagosta do Canhedo, que era de lamber os dedos. O redator-chefe criava um ambiente favorável a seu repórter, mas não reivindicava privilégios. Sequer pensaria em prevaricar, oferecendo qualquer presentinho aos magistrados ou ao comandante, um cara que transpirava lisura e lealdade. Para todos os efeitos, tratava de se informar em detalhes sobre as chances de Pôncio e, entre uma e outra pergunta, introduzia observações cuidadosamente formuladas para impressionar bem os ouvintes.
Loredo aliás não descansava, enviando mensagens pelo correio eletrônico, fazendo ligações, reunindo-se com a assessoria jurídica. O caso de Pôncio mobilizava um pequeno exército solidário, enquanto a imagem pública de Lauro Munhoz se deteriorava a cada dia – diga-se a bem da verdade, com a ajuda do Jornal e de uma rede ligada a partidos adversários. Das sombras do esquecimento surgiam desafetos insuspeitados para contribuir na divulgação de excessos de todo tipo praticados pelo ex-prefeito, agora conhecido como o ogro, graças a sua fama e a sua cara de poucos amigos, de sobrancelhas felpudas. Como dizia porém o Castro, assumindo a pose de causídico padrão, – não devemos nos iludir com esse repúdio à figura do senador. Estamos fartos de ver corruptos premiados e a iniquidade tratada como virtude. – Isso parece coisa de Rui Barbosa, ria Cosme.
Marconolo só respondeu às mensagens depois de receber a quarta ou quinta. Assim mesmo, seu silêncio só foi quebrado para repetir o já dito. Cosme e o Castro então se mobilizaram para descobrir seu paradeiro e partiram para uma visita informal. Foram e tornaram a ir até a ruazinha sem saída na Tijuca, mas não havia ninguém em casa. Na terceira investida, uma empregada os atendeu e informou que o patrão estaria de viagem. Marconolo escorregava como quiabo. Castro conseguiu então um mandado de busca. Intimidado com o rumo que as coisas iam tomando, resolveu aparecer.


Canhedo, o gourmet, revelou-se uma figura ainda mais singular e cheia de truques do que o próprio Loredo imaginava. Cosme não tardou a perceber a versatilidade espantosa com que ele circulava das bancadas de sua cozinha para os bastidores da prefeitura. Tinha prometido ao amigo de infância que havia de encontrar o caminho para provar até que ponto a administração do Munhoz tinha sido desonesta e omissa. Lembrava-se de cada mancada do ex-prefeito, de cada esperteza, por causa das interferências que criaram dificuldades a seu trabalho, na época ligado aos estaleiros que funcionavam – alguns ainda hoje em atividade, embora seus ganhos tenham diminuído sensivelmente – no estado do Rio de Janeiro. Antes que Loredo esfregasse um olho, Cosme tinha conseguido de Canhedo informações sobre sua vida e suas andanças pelos estados do Brasil até 1998, quando resolveu ficar no Rio de uma vez por todas.
É verdade que os soldadores – profissão original de Canhedo – eram até então bem remunerados em serviços de construção naval, que exigiam deles uma formação impecável e lhes rendiam horas extras e serviços em condições especiais, com adicionais por insalubridade e insegurança. Parte da renda do gourmet viera daí, mas o detetive logo percebeu que Canhedo não era homem de se contentar com o possível. Abriu ele mesmo uma empresa do ramo, trabalhou por contrato para o setor naval durante mais de vinte anos e levou o calote de praxe do governo federal. Um processo que rolou na justiça durante mais de cinco anos, até que, um ano antes, teve ganho de causa para o reclamante que, deitado em sua rede do norte ao lado de Rainha, como chamava sua atual namorada, comemorou com ela as benesses que o futuro prometia. Eram mais de três milhões de reais, mais juros e correção monetária, garantidos por um contrato cujo original ele guardava em seu cofre-forte, instalado por trás da adega climatizada de sua cozinha.
Munhoz entrava nessa história como um vilão que, conhecendo os altos valores de seus contratos, multara seguidamente sua empresa por instalações insalubres – uma alegação fantasiosa, naquele ramo de atividade, e uma intromissão indébita na jurisdição, que de direito pertencia à fiscalização federal – e uso indevido de terrenos municipais não autorizados.
Havia ainda entre os dois uma pendenga antiga, dos anos 70, quando haviam se encontrado em Salvador, Munhoz em viagem de turismo e Canhedo, recém-casado, naquele tempo ainda empregado de um pequeno estaleiro, cuja mulher fora seguidamente assediada pelo jovem político que Lauro ainda era. Os dois tinham trocado uns socos sem maiores consequências, separados aos dez ou quinze minutos de briga pela turma baiana do deixa-disso, certa de que não valia a pena apostar em nenhum dos dois, já que não pareciam ferozes o suficiente para divertir a galera. Só isso talvez não justificasse a prolongada implicância do político, mas o prefeito era do tipo popularmente conhecido como carne-de-pescoço. Não desistia fácil de prejudicar um desafeto, e com o Canhedo a coisa rendeu até que, cansado de ser incomodado por aquela autoridade mesquinha, o empresário decidiu acionar a prefeitura por abuso de poder.
Canhedo parece ter nascido com o traseiro virado para a lua. Apoiado por amigos influentes, ganhou também essa ação – coisa de um acumulado de três centenas de milhares de reais. Descobriu nesse período que o prefeito conseguira reunir um número notável de inimigos, durante sua gestão, e Cosme gostou de saber disso. Munido de endereços e nomes, partiu para suas investigações e teve grande sucesso em ao menos seis delas. Tinham agora mais seis testemunhas contra o ogro.

quarta-feira

Uma história incompleta cap. 14


14

Loredo costumava frequentar a casa de um cara chamado Canhedo, um novo-rico sem deslumbramento, ainda com hábitos de homem do povo, cujo maior prazer na vida era reunir amigos e conhecidos e cozinhar para eles. Ocupara grande parte do espaço ao lado da casa com uma espécie de cozinha do gourmet, equipada com uma adega respeitável, dois fogões, uma enorme churrasqueira de tijolos, grelhas, freezers, geladeira, uma ampla despensa, bancadas que se estendiam a toda volta e todo tipo de temperos e especiarias. Um imenso galpão, caprichosamente coberto de telhas sobre um bonito arcabouço de madeira lustrada, sob o qual havia mesas de quatro lugares e uma outra, mais comprida, para os dias de comemorações íntimas, onde oferecia almoços e jantares para cerca de quarenta a sessenta pessoas.
Canhedo conhecia a nata da zona Sul, e em seu galpão era fácil encontrar secretários municipais ou estaduais, vereadores, juízes, autoridades policiais ou clericais, lado a lado com violeiros, tecladistas ou percussionistas, além de pés rapados que curtissem música, gente de boa voz, artistas ou escritores. Vez por outra, um governador e com mais frequência o prefeito da cidade podiam ser encontrados lá, numa noitada um pouco exótica, mais divertida e agradável que uma boate. Além do ambiente eclético e do talento de anfitrião, Canhedo dava um tom família a suas reuniões, onde vips e plebeus podiam levar suas mulheres e onde os limites de cada um para beber eram respeitados. Não que fosse careta, ao menos quanto a drogas, por exemplo. Ele mesmo bebia seu vinho com classe e, se algum dia usara aditivos do tipo, estava livre deles. Nunca no entanto se aborrecia ou excluía alguém de sua casa por causa de um baseado ou de uma cheirada discreta. Mas havia certa moderação pairando no ar, de modo que todos se sentiam à vontade.
Além de tudo, no entanto, o que atraía grande parte daquela gente era a comida apreciável que o dono da casa sabia preparar, farta e bem feita, embora sem pratos muito sofisticados. O paladar do homem era excelente, e seu tempero afamado entre chefs de restaurantes de respeito. Ser convidado pelo Canhedo significava almoçar ou jantar como um príncipe do povo. Quando alguém que não o conhecesse bem queria saber por que não abria um restaurante, ele sorria um pouco misterioso, o rosto redondo e moreno alargado, e mudava de assunto com uma sutileza inesperada para um personagem com aquela aparência um tanto rústica.
Ninguém sabia ao certo de que vivia o Canhedo. Que era rico, ninguém podia duvidar, diante do casarão cercado por um terreno razoável, numa ruazinha escondida atrás da Epitácio Pessoa, no coração do bairro da lagoa Rodrigo de Freitas, e diante da prodigalidade com que tratava seus convidados. Mas seu passado e sua ocupação eram assunto de muita especulação, embora bem poucos soubessem tudo sobre sua vida, distante do clichê do livro aberto.
Loredo era um desses poucos. Conhecera o homem ainda saindo da adolescência, filho de gente humilde, retirantes do Acre, onde uma ação desastrada do governo estadual destruíra sua casinha de lata e madeira para deixá-los na rua poeirenta e esburacada. Numa viagem pelo Norte, Calixto Loredo, seu pai, funcionário público estadual no Rio de Janeiro, condoído com a situação da família, tinha dado um jeito de trazer os quatro – Silvino Canhedo, a mulher e dois filhos com cara de fome. Acomodou os quatro nos fundos da casa em que ainda viviam os avós do Loredo, num subúrbio não muito distante, e colocou Silvino e a mulher como contratados a serviço do governo, além de conseguir escola para os meninos e mais tarde uma formação profissional eficiente, que transformou Canhedo filho num soldador de respeito e seu irmão menor num eletricista de sucesso. Isso lhe valeu uma gratidão sem limites e a amizade que cresceu entre Loredo e o garoto mais velho, agora esse gourmet afamado.
Pôncio esteve algumas vezes com o chefe na casa da lagoa, e ultimamente levara Larissa e os meninos para um almoço regado a vinho chianti da melhor qualidade e cerveja muito gelada. Tinha sido um sábado divertido, de conversa amena e boa música, por conta de um conjunto recentemente incorporado ao grupo, que crescia sempre. Mas o que o redator-chefe visava não era só amenizar aquele período difícil da vida de um de seus repórteres mais destacados. Havia um interesse, cada vez mais claro para eles, no convívio dos amigos juízes e altos funcionários da segurança. Havia até um novo agregado, o Hartmann, comandante da Polícia Federal, pessoa de convívio muito agradável, entendido em história e sociologia, fala bem articulada e maneiras polidas, que encantou Larissa e deixou os jornalistas muito bem impressionados. A casa do Canhedo tinha esse dom de abrir novos caminhos, e não era só a comida de qualidade a responsável pelo sucesso e pelo crescimento de suas reuniões. E o sucesso era tanto que, pouco tempo depois da adesão de Pôncio ao grupo, os ágapes tinham ficado restritos aos sábados. – Não há tatu que aguente, desabafou o Canhedo para seu irmão postiço. Mas para os amigos do peito não tem dia nem hora – e isso incluía Pôncio e família.


A mensagem de Marconolo para Pôncio dizia apenas isso: sua história sobre a tragédia do estádio está incompleta. Nenhum indício de que o remetente pretendesse ajudar a esclarecer a parte que faltava, nenhum oferecimento de telefone, nada mais que isso: uma história incompleta. Aquele cara inibido, meio fóbico, não resistira a enviar um e-mail. Não se arriscava além disso, e só esse ato já lhe havia custado uma cruel luta consigo mesmo, que a consciência vencera, porque além de fóbico Marconolo era escrupuloso em seus atos. Media e pesava prós e contras, voltava a medir e pesar quantas vezes a dúvida o maltratasse. Havia uma espécie de prazer neurótico nesse processo, no vaivém da vontade, nas idas e vindas que pareciam percorrer, incessantes, todo seu corpo.
O teor da mensagem no entanto chamava a atenção de Pôncio, mais agora do que no momento em que a recebera. Envolvido pelas investidas de Lauro Munhoz e instado por Cosme, tinha examinado detidamente cada uma das mensagens conservadas na caixa de correio sobre a reportagem. Selecionou então as que lhe diziam alguma coisa e, com a ajuda de seu detetive caboclo, elegeu como a mais interessante essa que falava de uma história incompleta. Para mal dos pecados do pobre Marconolo, Cosme queria saber de quem se tratava, onde poderia ser encontrado esse sujeito de nome estranho e por que afinal enviara esse recado sucinto e enigmático sem ir mais a fundo em sua observação. – É preciso dar atenção a essas aparentes insignificâncias, coisas inexplicadas, por trás das quais há uma explicação que pode ser desde falta do que fazer de um remetente boboca a um dado decisivo que ele não explicitou. – Mas se fosse tão importante, por que o cara não entraria nos detalhes, afinal? – Vai saber por quê, disse o outro, encolhendo os ombros. As pessoas funcionam de modo muito específico, e você ficaria surpreendido se pudesse adivinhar o que se passa em cada cabeça. – Tenho uma ideia disso, respondeu Pôncio, pensando em Mônica Lessa. Eu mesmo – ia dizendo, mas se interrompeu, porque agora pensava no caso de Líria e na mancada que ele mesmo fora capaz de dar naquele dia em que quase tinha destruído as melhores amizades de sua vida. – Um cara que se dá ao trabalho de endereçar uma frase dessas a alguém, num caso como esse de sua reportagem, pode ser um lunático querendo aparecer a qualquer custo, mas também pode ser uma testemunha valiosa, que não teve a coragem suficiente para arriscar mais do que isso. Nesse caso, ele diz uma verdade importante sem identificar suas razões, deixa uma pulga atrás da orelha, e o único jeito é correr atrás dessa testemunha. Vai ver é isso que ele deseja.
Pôncio concordava com o detetive, e Castro também reconhecia a necessidade de buscar esclarecimentos que justificassem a mensagem. – Tudo nos interessa nesse caso, precisamos da verdade mais cabal, em todos os pormenores. Quanto mais detalhes e explicações de todas as circunstâncias, melhor para nós – para você em especial, Pôncio.
No momento em que Pôncio redigia a resposta solicitando esclarecimentos a Marconolo e encarecidamente explicava suas razões profissionais para tal pedido, sem entrar em detalhes de justiça e no envolvimento direto de Munhoz na história (Castro lhe explicara que esses dados podiam espantar a presa), sua mulher chorava, sozinha em casa, trancada no quarto, inteiramente dominada por uma aflição angustiada que não podia partilhar com o marido, já sobrecarregado de problemas. Pouco depois, como se adivinhasse, Líria chegava a sua casa trazendo um belo quiche para o almoço, que pretendia partilhar com a amiga. As duas se abraçaram e choraram juntas, porque, ao contrário de Larissa, ela e o marido ainda viviam a doçura da reconciliação, e Líria podia avaliar a agonia da outra, convencida de que Pôncio se desinteressara dela de uma vez por todas. – O pior de tudo, soluçava a mulher do jornalista, é que nem ao menos posso falar com ele sobre isso agora, e pode ser que tudo seja só por causa dessa maldição desse caso do senador. Mas como é que eu posso ter certeza? Ele mal olha pra mim, Líria, e eu não vou aguentar se o Pôncio me deixar. – Ai, sua boba, deixa disso, respondia a amiga, as lágrimas escorrendo aos pares, você vai ver que não é nada disso. Bem no íntimo porém, Líria temia tanto quanto ela que fosse verdade.