
Uma menina vestida de branco se destacou da sombra das
amendoeiras e caminhou até a beira do lago escuro. Não sabia que era o centro
da paisagem. Se soubesse, teria achado engraçado e brincaria com isso, ou se
intimidaria a ponto de fugir para perto da mãe. Mexia na água turva e
esverdeada com uma fina varinha que o limo ia impregnando de seu verde pegajoso.
Olhou durante alguns momentos os gansos esvoaçando na outra margem e contou-os
com a varinha erguida em sua direção como quem regesse uma orquestra invisível.
Depois correu rampa abaixo e foi chamar outra menina que deixara sentada no
banco de pedra minutos antes. Falaram bem baixo, e depois correram para o lago.
As vozes eram agora o som da manhã.
Verdes sombrios e luminosos, cores esmaecidas no espelho dágua. A outra menina
seguiu a primeira, e agora atiravam pequenos pedaços de pão para os peixes. Os
gansos haviam desaparecido e o sol leve aquecia pouco. Era bem cedo, muitos
ruídos estavam por vir, o calor iria apertar.
Um grupo
de crianças apareceu de uma das aleias laterais, acompanhado por duas mulheres. Uma delas trazia um trabalho manual, a outra empurrava um
carrinho de bebê. Sentaram-se lado a lado e começaram uma conversa embalada
pelo vaivém do carrinho. O vozerio aumentou pelo ar ainda meio adormecido. Uma carrocinha de pipoca e outra de sorvete se aproximaram, e uma grande bola de
gomos coloridos pareceu florescer em pleno ar, saltando de mão em mão. Duas
bicicletas contornaram a praça, e alguns corredores apareceram, vestidos de
malhas e bermudas.
Em meio à cena sinônima de todos os dias, uma freada violenta despertou as
atenções e por alguns segundos centralizou o movimento do pequeno parque em uma
só direção. Alguém havia sido atropelado, logo depois da curva fechada de que
as amendoeiras tapavam parcialmente a visão.
Com algum esforço, a mulher de verde que contemplava o parque, do quiosque de
bambu e sapê sobre a rampa do lago, conseguiu enxergar o homem sobre o asfalto.
De onde estava, estremeceu diante da quebra que aquele choque significava. A
vida se desmantelava, e o que parecera certo e seguro alguns momentos antes era
agora um punhado de sensações incertas, fugidias. As vozes mudaram de tom, e um
grupo novo se formou no mesmo minuto, contemplando o corpo em posição fetal junto
ao meio-fio. Recostado num carro, um homem de cabelos brancos parecia
paralisado, enquanto outro, mais novo e mais forte, gesticulava intensamente no
meio do círculo de curiosos, e o som de sua voz chegava até os ouvidos da
mulher de verde. Alguém que ela não podia ver gritava por Isabel, e uma criança
começou a chorar longe dali.
Virava o jogo dos espelhos, o caleidoscópio girava. A mulher resolveu seguir
seu destino, entregando aos estranhos o corpo que não lhe pertencia.
O sol resvalava pelo toldo amarelo de uma loja e se derramava na calçada clara
e larga. "Glória, glória, aleluia", ouviu a mulher, num coro de
poucas vozes. Procurou o grupo com os olhos, estavam do outro lado da rua, na
praça ensolarada, desafinando com todas as forças de seus oito pulmões. Teve a
impressão de que uma bolha de sabão estourava dentro de sua cabeça, abrindo
espaço para uma solidão límpida e soberana.
Seguiu assim entregue a seus
pensamentos durante algum tempo, até que as sirenes da ambulância e da polícia
lhe trouxeram a súbita lembrança do corpo no asfalto, ainda tão perto, e lhe
provocaram uma sensação avassaladora como uma culpa.
Procurou no fundo da bolsa um lenço de papel. Durante alguns segundos, a
angústia tomou conta de seus gestos e confundiu seus pensamentos. Segurava a
bolsa aberta quase inconsciente, e um sentimento de urgência incontrolável foi
crescendo dentro dela e pôs sua memória em funcionamento frenético. De repente
se pôs a correr, porque havia pouco tempo, não sabia exatamente quanto, mas
bem pouco, para encontrar as pessoas e provar a si mesma que a vida tinha
valido a pena.
Trecho de
O escritor, o pintor e os dentes brancos do Morais.
Imagem de Dante Barbosa Guimarães. Jeanne.